Bar do Justo


O Bairro Velho - parte II

Para a memória, tinha ficado os anos da rua. Uns grupos eram mais dos saltos e das bolas, outros dedicavam-se às jogadas do pensamento e havia ainda os que viam nas miúdas o alvo do dia a dia. Cada qual queimava as horas como melhor lhes parecia.

Os da Praceta eram, até certo ponto, os grandes invejados. Enquanto os outros estavam limitados pelos carros que passavam na rua ou que estavam estacionados no passeio, a Praceta tinha um polidesportivo à séria.

No meio, o campo da bola tinha sete lados e era metade terra, metade alcatrão. Mas, mesmo assim, dava para ser o Wembley do bairro. À volta, jogava-se ao pião, ao guelas, ao alho, ao hóquei e às caricas.

Apesar da Praceta ser quase plana, nem os carros de esferas se deixavam ficar. Era só riscar uma grelha de partida no chão da rua (onde os carros tinham preguiça de entrar) e haver quem empurrasse piloto e viatura até à primeira curva. O resto fazia-se por si.

Para quem ali tinha casa há quarenta anos, não havia pior sítio para a sesta da tarde. Já a malta da rua estava sempre em forma (todos os anos dois ou três iam jogar para o Vitória) e tinha tudo o que se podia querer.

E como a Praceta tinha fronteira com os Embrechados, com a Capitão Roby, com a Frei Fortunato e com o Carrascal, acabava por ser o natural destino para os que se cansavam de jogar às matrículas.
- Olha, outro 2. Já levo quatro pontos.
- Quatro??? Ainda há bocado tinhas dois!
- Ah é? E o Datsun encarnado? Não conta, é?!

Apesar da Quinta dos Embrechados ainda ocupar para aí um terço da área de todo o bairro velho, não passavam por lá Datsuns e Toyotas. É que a quinta era sítio de barracas onde os ciganos se cruzavam com outros a quem a sorte tinha falhado.

Entrar ali não dava descanso aos forasteiros, mas como não havia chafarizes mais próximos, acabava por ser ironicamente a mais violada das fronteiras.

E porque para mais não podia dar, a quinta era viveiro de jogadores da bola. O Luís Cara-de-Homem, o Magala, o Marinho, o Quim da Ti’Ana, o Chucha e o Galvão montaram o primeiro time para os históricos jogos contra a Praceta. Estava-se em 1980 e, naqueles "muda aos 5 e acaba aos 10" era como se o Uruguai e a Argentina pelejassem num campo da Picheleira.

Na criação que se seguiria, o Trapo, o Narais, o Bloga, o Irmundo (Edmundo era palavra difícil até para o próprio) e outros entraram como os lógicos substitutos no alcatrão da Praceta. Mais tarde, a história contaria que as duas gerações ainda se viriam a cruzar nos mesmos pátios e nos mesmos jogos. No Linhó ou em Pinheiro da Cruz.

A Capitão Roby cruzava toda a parte baixa do bairro. À vista da Carris, era a rua mais importante do bairro, pois era ali que o 30 e o 55 faziam zona, antes de se fazerem a caminho do Hospital de Santa Maria e de Alcântara-Mar.

Assim como se deixava tomar por duas carreiras de autocarros, a Capitão Roby era ocupada por dois grupos diferentes de pessoal.

A sul, e porque o óleo dos autocarros criava problemas a quem quisesse parar uma bola de peito, o pessoal era mais estimulado pela imaginação. Ali, as tardes eram inventadas, num constante materializar de novas actividades.
- E se jogássemos aos guarda-redes dentro do prédio do Pires?
- Parece que ‘tás esquecido. E a cegada que foi com a bola a bater nas portas? Eu cá para mim reinava aos espiões.
- Para isso íamos fazer planespotting.
- Epá, isso é muita chato. Só ter que 'tar à espera dos aviões... Isso é uma soda.

De ano para ano, o 55 vertia cada vez mais óleo e os ténis Sanjo rebentavam cada vez mais cedo. Em proporção, a revolta dos pais à noite subia cada vez mais de tom:
- Olha para esta miséria. Qualquer dia tenho que ir roubar para te comprar ténis. Eu não te queria bater no dia dos teus anos, mas tenho a impressão que hoje não te safas.

Com este sistema de altas pressões, as cabeças tinham mesmo que funcionar. E assim era nova brincadeira atrás de nova brincadeira. Pensando hoje naqueles dias, nem se estranha que quem tenha acabado os estudos tenha começado na Capitão Roby.

Já a zona norte da rua era interessada por outro tipo de estímulos. Fosse pela irrequietude das raparigas ou pela curiosidade dos rapazes, dali vinham sempre histórias que marcavam a juventude dos indígenas.
- O quê? Os dois?
- Epá, eu não ‘tava lá p’a ver. Mas dizem que era um pela frente e outro por trás.
- Bem, essa gaja… Nunca m’enganou.

À passagem dos 12 anos, ninguém precisava de prova maior do que alguém se lembrar de contar a história. Bastava o rumor andar por ali insinuado e era palavra bíblica: ela tinha sido comida.

Ainda por cima, como ali as bolas andavam arredias da rua e não havia vestígios de guerras de canudos pelo chão, mais ficava a ideia que o pessoal da zona norte da Capitão Roby andava orgiado pelas casas uns dos outros.

E, para fechar o ramalhete, até se falava de um dono de uma tipografia que tinha hábitos de acariciar as virtudes da miudagem e lhes dar bicicletas pelo favor. Ele até podia ter o negócio noutro lado, mas por acaso (ou talvez não) até era à entrada da zona norte.

A Frei Fortunato era mais conhecida pela Cervejaria do Greno e pela Tasca do Agostinho do que pelos miúdos que lhe ocupavam os passeios. Ali pagava-se os custos da interioridade, com a Calçada da Picheleira a norte, o Carrascal a oeste, a Capitão Roby a leste e a Praceta a sul. E assim, os nativos acabavam por estar destinados à emigração para os territórios vizinhos.

A ajudar, os pais não encorajavam a permanência na rua:
- Ficas já a saber: não te quero ao pé do Greno, qu’aquilo é só palavreado ordinário. E se sei que vais p’o Agostinho jogar na máquina, estás bem lixado comigo.

Mais acima, ficava a Calçada do Carrascal. Era gente que não tinha grandes relações com o resto do bairro. Davam sempre a ideia de que deviam ter chumbado na escola e que os pais os punham a trabalhar nas férias grandes. Em suma, era quase terra de ninguém.

A rua mais nova do bairro velho (e, por isso, discutida se fazia parte íntegra da Picheleira) era a João Nascimento Costa. Aos prédios de seis andares já se subia de elevador e os carros já tinham apoios aerodinâmicos. Para o resto do bairro, era outro tipo de gente.
- Ah, aquilo é só pessoal com guita. Meninos do papá.

No bairro, as ruas que iam de leste para oeste não tinham expressão nem interesse. De tão íngreme, a Silveira Peixoto só oferecia um programa: subir ao primeiro andar da sede do Vitória e ver os passantes a deixarem a pele das mãos ou a espatifarem o osso do sacro nas pedras do passeio.

Na Calçada da Picheleira, tinham que se redobrar os cuidados, de tantos serem os carros que passavam acima e abaixo. Ali, jogar às matrículas seria uma montanha russa sem travões.

Em certas horas do dia, a Perry Vidal parecia-se com a saída de um portal da Avenida do Brasil. É que, por um triste acaso dos realojamentos da Câmara ou por um teste chumbado à consanguinidade, a rua abundava de loucos. Na verdade, não passariam de dois ou três, mas como moravam num só quarteirão, há que convir que é um feito.

Era assim o Bairro Velho da Picheleira à passagem dos Anos 80. De tão estranho e desarranjado, não era sítio para se receber convidados. Mas, bem vistas as coisas, já se estava muito bem assim.

O Bairro Velho - parte I

Ali, ninguém ouvia falar em gangs e as mortes só aconteciam mesmo na última cova dos berlindes. Contudo, que ninguém levante dúvidas: morar nos Anos 80 na parte velha da Picheleira era fazer parte de um delicado equilíbrio territorial. Ou, nem exagerando, de um intrincado exercício geo-estratégico.

Eram sete ruas, uma praça e uma quinta que não se esticavam por mais de uma mão cheia de kilómetros quadrados. E, pelo meio, mais de cem miúdos que ainda não passavam da idade da penugem, mas que já vestiam a camisola da sua rua.

Nem todas estas ruas tinham um grupo (na altura, dito “o pessoal”, como “o pessoal do Carrascal” ou “o pessoal da Frei Fortunato”). Mas, por outro lado, haviam grupos que até tinham que dividir entre si o comprimento de uma rua, quarteirão a quarteirão.

Contudo, entre territórios divididos e não-ocupados, nunca foi preciso instalar postos de fronteira. Nunca os da Praceta tentaram anexar o Carrascal, nem os dos Embrechados tinham levado um exército armado de canudos para a Capitão Roby. Os tempos eram de mudo entendimento. Cada um tinha o que tinha e ponto final.

Não quer isto dizer que o ambiente fosse de simpatia ou amizade. Simplesmente, havia sempre um ou dois tipos de cada tribo que jogavam juntos no Vitória ou andavam na mesma turma na Cesário ou na Luísa. Então, havia tolerância.

Mais, se o tipo tivesse feito dois golos ao Operário no último fim-de-semana ou fosse visto sozinho e sem medo nos carrinhos de choque da Paiva Couceiro, chegava a merecer o respeito do pessoal doutras ruas.
- É d’ homem. Aquilo é d’homem…

Naquele tempo, o bairro tinha uma reputação além-fronteiras de ser uma terra de índios. Os de fora diziam que para virem à Picheleira e irem para casa sem o passe e o fio de prata, mais valia estarem sossegados. Em qualquer dos grupos do bairro, já habituados à história, achava-se que a razão era outra:
- Isso é gajos que têm é medo de jogar contra nós. Sabem que até lhes damos 5 de avanço.

E, assim, tirando as saídas aos campos da Curraleira e do Casal do Pinto (que também não tinham relações diplomáticas com o exterior), estava destinado o arranjo entre os grupos do bairro. Fosse para jogar à bola ou para as jornadas de atletismo.

Nesta ordem das coisas, nunca passou pela cabeça de ninguém cortar relações com outro grupo. Por duas razões principais: primeiro, porque isso seria forçar o isolamento territorial a que já se estava entregue; segundo, porque quando se tem 12 ou 13 anos, não se pensam nessas coisas.

Com o passar dos anos, até havia gente a ir de um grupo para outro, sem que isso fosse razão para o marcarem com uma fisgada de clipes ao passar pelo antigo território. Havia quem tivesse vivido mais de vinte anos na Frei Fortunato, deixado a puberdade na Praceta e acabasse por fazer amigos na Capitão Roby.

Assim, a livre-circulação marcou o fim da década. Havia gente dos Embrechados na Praceta, pessoal da Frei Fortunato na Capitão Roby e chegava-se a mudar de grupo de ano para ano.

Foi também a temporada em que os piões foram definitivamente quincados pelos computadores. Agora, haviam até ruas que pareciam órfãs dos seus grupos. Nas mesas das leitarias ou nos bancos de jardim, os velhos do bairro já não ameaçavam rasgar as bolas com um canivete.

E, casa a casa, os grupos juntavam-se à sombra. Chegara a globalização.

Reembargado?

Será que o impiedoso Diniz reapareceu por aqui?

primeira, segunda, terceira, meia-piras, piras e matas




A ignorância ou distração da juventude do meu tempo tinha coisas levadas da breca. Nunca cheguei a entender porque carga de água é que quando "sorteávamos" - não era bem um sorteio, era mais um leilão como na lota - a ordem do lançamento dos gelas (Ó Port, escreve-se guelas ou gelas) e berlindes havia um que dizia logo:

"- últimos"

Logo seguido por um outro que, resignadamente, dizia

"- penúltimos".

Até aqui a coisa parecia seguir uma coerência de escolha, acertada. Ou seja, tinha havido um que tinha gritado, à frente de todos, "últimos" e que por isso tinha ficado com a oportunidade final de tentar lançar o seu berlinde o mais próximo possivel da 1ª covinha e tinha havido um outro, que devido a ter gritado em segundo lugar "penúltimos" poderia lançar o berlinde imediatamente antes do último.

Pois, mas a verdade é que a coisa não sucedia assim. Quem estivesse também a jogar, poderia gritar (e gritava logo),
"- Marralhões!".
Logo um outro dizia,
"- Cavalinho Branco"
E havia ainda uma suprema possibilidade de se gritar
"- Estrelinha do Universo"
Arrebatando a possibilidade de ser o último lançador, deixando todos os outros para a sua frente.

E assim - e aqui apresento a primeira curiosidade - a ordem seria a seguinte:
- em primeiro lugar lançava o que tinha inicialmente dito "últimos" (que ironia do caneco)
- depois lançava o que tinha dito "marralhões"
- depois o que dissera "cavalinho branco"
- logo a seguir - e aqui é que está o busílis da questão - vinha o que dissera, imagine-se "penúltimos"
- e finalmente a famosa "estrelinha do universo".

As perguntas que eu deixo aqui no ar, 30 anos depois, são as seguintes:

- mas nunca ninguém se apercebeu que poderia dizer logo de início "estrelinha do universo" deixando os outros jogadores a degladiarem-se pela pouco atraentes primeiros lugares de lançamento?

- ou será que só se poderia gritar "estrelinha do universo" se alguém cometesse a loucura de desencadear esta disputa com o "marralhões".

- nunca ninguém se apercebeu que era bem mais seguro gritar logo de caras "penúltimos", garantindo mesmo, o penúltimo lugar no lançamento?

- porque carga de água havia um parvo que era estúpido o suficiente para dizer "últimos" sabendo de ante-mão que acabaria por ser o primeiro a lançar?

O novo adversário

Fosse no Oriental ou na Tuna de Chelas, o regresso ao balneário nunca era empurrado pelo desânimo:
- Viste a cueca que eu dei ao gajo?
- E aquela de calcanhar? Bem, se aquela entra…


Qualquer testemunha mais desavisada, veria naqueles cinco de tronco nu um rolo compressor a voltar à base. Trazendo os ténis nas mãos, era como se ostentassem orgulhosamente as mortíferas armas do crime. Quase que dava para adivinhar que, no balneário do lado, um enlameado guarda-redes adversário estaria sentado no chão, enquanto as mãos lhe seguravam a cabeça.

Em suma, não se diria que aquele exército de alegre virtuosismo pudesse ter sentido qualquer resistência no ataque às linhas oponentes. Mas muito menos se diria que o score tinha ficado em 2 a 6. Para os outros.

O futebol de salão era assim. Nem sempre se ganhava. Mas como qualquer desporto que sorria aos tecnicistas, havia sempre um jogo dentro do jogo. Fazer mais golos era importante. Mas o que mais tarde se lembrava eram as duas ratas na mesma jogada que o Fanã tinha feito ao calmeirão com a camisola do Bayern.

Nesta faceta do jogo, a equipa da Praceta interpretava essa filosofia com grande seriedade. Uma defesa não seria defesa se o guarda-redes não caísse no chão de seguida. Melhor que isso, só se ele socasse uma bola sobre a trave para na queda se emaranhar nas redes da baliza.

Ficou histórica uma parada do Jorge num campo para os lados de Alvalade: chovia como nunca e quando ele esmurrou para cima um forte remate, um relâmpago rebentou nos céus trovejantes. Ninguém mais se havia de esquecer.

Tanto perdiam como ganhavam, mas nunca, por nunca ser, entregavam o mérito da abertura do marcador. Assim que o jogo começava, assistia-se a um vigoroso raide à baliza adversária. E só se descansava, quando se desfloravam as redes. A partir dali, a poupança de esforços passava a dominar a actuação.

No entanto, que não se fique com uma ideia errada: a equipa da Praceta era uma equipa de ataque. Bastava para tal pousar os olhos no seu sector defensivo. Isto se se puder chamar de sector a uma única camisola que, qual tresloucado iô-iô, ia do lado esquerdo ao direito do campo, tentando chegar aos dois ou três oponentes que trocavam a bola entre si.

Num deliberado sistema 1x3, os avançados da equipa assistiam pausadamente à angústia defensiva. E, a cerca de dez metros da cena, aguardavam que um corte providencial pudesse originar uma eficaz transição defesa-ataque. Se desse em golo adversário, eles regressavam ao seu meio-campo (é sabido que se reiniciava ali o jogo). Mas se o defesa ou o guarda-redes tivessem feito o papel que lhes cabia, eles já estavam onde deviam. Junto à área dos outros.

E aí aqueles três feiticeiros da nota artística estavam como peixes na água. O Paulo do 2 (na Praceta, os números dos prédios eram também apelidos) jogava com souplesse de anjo. Dava sempre as boas-vindas à bola com uma suave carícia e tal era a sua técnica que parecia ter mãos em lugar de pés. Não sabia defender e, talvez por ciúme, só no limite é que deixava a bola para alguém. Mas, quando o fazia, podia eliminar a oposição de dois suados e resfolegantes defesas com um sereno toque de calcanhar. Depois, ainda que com antecipada saudade, fazia-a sair redondinha para os pés do Fanã.

O Fanã cabeceava como o Rui Águas e até era melhor de pés do que ele. Era pena que o futebol de salão fosse desporto de bola rasteira. Mas, se assim não fosse, ele não faria tantas vezes aquela finta em rodopio que deixava os adversários à procura do esférico. Não vinha muito à defesa e só passava a bola quando não havia (mesmo nenhuma) hipótese de rematar à baliza. Mas, se (e só se) houvesse um muro a tapar-lhe o alvo, era homem para levantar a bola e passá-la para o Brux com o ombro esquerdo.

O Brux pertencia à fina estirpe de atacantes que do imobilismo absoluto, surpreendia toda uma matilha de defensores ao explodir para uma velocidade warp. Com a sua desconcertante finta em progressão de um pé para o outro, era a modos que o Romário da Praceta. É certo que nunca se aproximava da sua defesa e desconhecia o conceito da desmarcação dos colegas. Mas, quando chegava à rede adversária, era um assassino desapiedado. A menos que a vontade lhe desse para um remate à trave depois de fintar duas vezes o guarda-redes. O que, segundo os parâmetros da Praceta, era façanha para mais tarde recordar.

Nesta ordem de coisas, o time da Praceta era admirado no bairro. E, se se podia perder além-fronteiras, já a Picheleira não tinha equipa à altura daqueles cinco. Foi então que começou a surgir o rumor:
- Parece que o Fã vai fazer uma equipa de futebol de salão.

A primeira reacção foi de surpreendida displicência. O Fã podia virar os cinco do avesso só com o braço esquerdo, mas não havia um único cigano com reputação de temível futebolista. Assim, mais ninguém pensou no assunto.

Mas, numa Terça-Feira à noite, enquanto os da Praceta jogavam (conta-se que já estavam a ganhar 1-0), o Fã foi visto a entrar na Tuna de Chelas. E, durante todo o tempo do jogo, ali ficou. E com modos de observador de clube estrangeiro.

No fim do jogo, enquanto alguém falava de um golo de bicicleta, o Fã aproximou-se no seu passo gingado em que não assentava os dedos dos pés no chão. E, com as mãos cruzadas atrás do fundo das costas, fez um sinal com a cabeça ao Malveira.

Do Malveira não se falou ainda aqui. Ele era o 1 do sistema 1x3. Em suma, ele era o desamparado sector defensivo. Não tinha a arte dos demais e, apesar de insistir que punha a bola onde queria com os seus passes em profundidade, o resto da equipa demorava-se num unânime silêncio quando chamados a concordar com os seus dotes de distribuidor de jogo.

Por isso, diz quem viu que ele até encheu o peito quando o cigano Fã lhe gaguejou:
- Tu-tu, tu és, e-e-e-, tu és um grande e-e-e tribulidor e-e-e de jogo.
- Chiça, ó Fã, hoje nem joguei nada.
- Na-na-não, jo-jogastes bem. Jo-jogastes bem.
- Olha, deu p’a ganhar. Mas os outros gaj…
- Ou-ouve. Ou-ouve o que e-e-e eu te vou e-e-e dizer.
- Diz, diz.
- E-e-e-e não que-que-res ir jogar p’ra e-e-e minha equipa?

Quem estava perto, diz que o Malveira ficou branco. O Fã, de quem se contava ter morto um tipo na prisão, não era do tipo de pessoas a quem seria fácil dar um “não” como resposta.
- Epá, ó Fã, já jogo com o pessoal desde miúdo. Gostava de ir jogar para ti, mas depois o pessoal nem me falava.
- Ou-ouve. Ou-ouve. Man-mandei e-e-e fazer umas e-e-e-e camisolas e-e com o nome e-e-e-e-e nas costas.
- Ó Fã, desculpa lá, pá. Mas há-de haver aí montes de gajos a quererem ir p’a tua equipa.
- Que-que-quero um e-e-e tribulidor de jogo. Mas se e-e-e não vens, então e-e-e não vens.

A partir daí, ficou-se a saber. Não era história. O Fã estava a fazer uma equipa para jogar contra eles. E até ia mandar fazer camisolas com os nomes nas costas.

Quando, passadas umas semanas, a equipa do Fã ficou pronta, ele mandou entregar o desafio. E quem fez o anúncio até foi o Jorge, tido como o melhor guarda-redes da Praceta.
- Olha, o Fã quer jogar contra nós amanhã.
- O Fã? Mas ele sempre arranjou gajos?
- Então, joga o Maria do Rio, joga um gajo que é dos seniores do Palmense… Os outros não os conheço.
- E quem é que joga à baliza dele?

Foi então que caiu a bomba. Um verdadeiro autogolo no último minuto.
- Pá, eu vou passar a jogar deles.
- Vá lá, quem é o gajo?
- Sério. Vou jogar na equipa dele.
- O quê, vais jogar do Fã?! E dizes isso agora?
- Epá, desculpem lá. Ele até já mandou fazer uma camisola com o meu nome.

Num sinal dos tempos, a equipa da Praceta tinha sido desfalcada por um adversário com maior poderio financeiro. O Jorge sempre tinha jogado ali. Mas, ao primeiro convite, não resistira à tentação de melhores condições. E do nome nas costas de uma camisola.

No dia do jogo, havia mais gente a ver que o habitual. Todos tinham ouvido falar da equipa do Fã. Ninguém os conhecia, mas apostava-se que a Praceta ia perder.

Hoje, já poucos se lembram do resultado do jogo. Uns dizem que foi um empate; outros sabem que a Praceta começou a ganhar 1 a 0.

Mas, das camisolas ninguém jamais se esqueceria: eram brancas com golas e punhos vermelhos. E, na parte de trás, acima de um número sombreado a feltro, cada uma tinha um nome. Aliás, todas, sem excepção, mesmo a do Jorge, tinham o mesmo orgulhoso nome: FÃ FUTEBOL CLUBE.

aniversário - cena II

Há uma cena na fantástica série Freaks and Geeks (aquilo tem tanto de nós, catano!) em que o Sam, para tentar ser mais "popular" lá na escola, vai comprar uma farpela toda modernaça. Sucede porém que o que o gajo acaba por comprar é uma espécie de fato-macaco disco sound. Convencido que fará um sucesso estrondoso com as miúdas, veste aquilo, calça uns botins de tacão, muda de penteado e lá vai para a escola. Como seria de esperar foi completamente gozado pelos Geeks e acaba por fugir para casa cheio de vergonha.



Comigo aconteceu-me algo parecido. A minha mãe foi à capelista do Manecas comprar umas novidades e assim lá fui para a escola todo pimpão. O conjunto era constituído por umas calças de ganga, com duas virolas para fora (altura de 5 cms) ao fundo das pernas - evitava-se assim trabalhos de costura nas baínhas -, uma camisa beije (muito em voga na altura), a bela da gravata bordeaux, uma camisolinha azul por causa do fresquinho e, a finalizar, um casaco perfecto-motorcycle em ganga (que me tingia as mãos de azul quando as punha nos bolsos).

É claro que fui gozado à força toda lá pelo pessoal da escola. Mas não fugi como o herói da série da tv. Não fugi porque depois os profs marcar-me-iam faltas, o que obrigaria o meu pai a dar-me um enxerto de porrada dos valentes.

Sobrevivi a 4 intervalos (atenção que o 3º era de 15 minutos), alguns pastéis de nata na cara, muitas puxadelas na gravata (ó chavalo, tens aqui um bacalhau todo bacano) e outras zombarias

À noite, lá houve a tão esperada festinha, com os habituais salames, molotofs, as schweppes....

E assim, aqui temos, em duas cenas nocturnas: Seth, Port (já com uma acentuada poupa muito à Tony Hadley e com nuances de shampoo de água oxigenada), Dar, o Pires, o meu primo Martelo e o grande Burrié e a mais a sua cabeleira ManuelGalrinhoBentiana)

O que é que te aconteceu neste dia, Waick? Foste jogar rami para a sede, a 10 tostões o ponto?






aniversário - cena I

Naqueles tempos eram frequentes as guerras, as zangas, as pazes, os amuos, as porradas, as tréguas, essas coisas todas.

No meu 13º aniversário, não havia guerra nenhuma. Mas tinha havido, sim senhor. Desta vez tinha sido com o Saraiva. Merdas de putos, o habitual. Coisas que passaram num instante. Por isso quando anunciei: "- Pessoal, logo à noite lá em minha casa, vamos soprar as velas, comer um bolinho e beber uma schweppes.", não esperava que as pessoas pensassem que o convite teria de ser feito individualmente. Nem era preciso.

Contudo.... bom, já lá vamos.

Durante anos e anos, a ementa de todas as nossas festas de aniversário era constituída pelo elementar bolo de 3 andares coberto de chantilly e bolinhas de açucar ou cerejas - feito pela mãe ou outra familiar com mais mãozinhas para os doces - duas ou três tortas dan cake com cobertura de amendoim ou de chocolate e, obviamente, a dupla fantástica: salame e molotof. Estes dois últimos eram comprados à Elvira dos Bolos (pessoa com um espírito fantastico, muito amiga da rapaziada lá da rua e que de vez em quando nos chamava para nos oferecer uns "cus de salame". Uma maravilha.

Qualquer uma dessas festinhas era um evento social da maior importância, não se podia faltar a uma coisa dessas. Lá esperei o pessoal, lá fomos ouvindo um ou outro disco que nos tivessem ofertado e já a festinha estava a decorrer há uns minutos valentes, quando às tantas o Waick Banan me propõe:
"- não queres ir chamar o Saraiva?"
"- o Saraiva? mas ele não veio porquê? não disse para ele não vir, pois não?"
"- ah, não sei. ele acha que não foi convidado. e até me disse "eu acho que o Dar tinha razões suficientes para me convidar!"
"- Razões suficientes para me convidar!?!? Foda-se! Olha-me a formiguita já constrói frases como gente grande, ena, ena. Eh pá, ó Waick, vai lá chamar então o gajo, pá"

Foi. E lá trouxe o gajo. Que vinha com o ar mais abatido do mundo. Nada que uma fatia de molotof e um copo de Frutol não sanasse.

E aqui estamos nós, de cima para baixo, da esquerda para a direita: Waick, Port, Dar, o meu primo Martelo, o Pires e o Nuno "ele tinha razões suficientes para me convidar!" Saraiva, já com a travessa dos palmieres quase vazia e o salame sem os respectivos cus.

E tu, Seth, baldaste-te, estavas doente ou andavas em viagem de negócios?




Nota: não quero bocas relacionadas com o tamanho das minhas golas. Eu já era o metrosexual que sou hoje, não é?

Pivete




Eu já estava a estranhar que não tivessem referido o Queijo Chulé naquela lista feita lá atrás.

Eu já estava a estranhar...

Mas perante certos factos, temos de apresentar provas do crime: pronto cá vai uma foto (não são bem estes mas para quem é, bacalhau basta) (por falar em bacalhau, o cheiro era bem pior que o de bacalhau, não era?) dos tais Tiger, comprados com o Pires no A. Montez, ali perto do Terminal do Rossio.

Memórias Waickianas - Parte 2

Era o início de mais uma tarde no “andar de baixo” do que mais tarde viria a ser o Bar do Justo. Um daqueles solarengos dias de Verão, para aí Julho ou Agosto de 1983, 1984 ou 1985. O grupo iria pôr em prática mais um magnífico passatempo, ideia de Seth.
A saber, Observação de Aviões. Foram atribuídos turnos para os 4 elementos, que com o auxílio de uns “potentes” binóculos teriam de assentar num bloco de papel, o horário da passagem do avião pelo nosso bairro, a companhia de aviação e o modelo do avião. Apenas isto. Fácil, mas também muito chato para Waick Banan. Havia que improvisar. E assim fez. Recordava-se vagamente que no quarto de Dar (um luxuoso espaço, com uns abundantes 3 m2) havia umas revistas “escondidas” debaixo da cama, muito apreciadas na altura pelo grupo, de seu nome “Gina” de fácil leitura e muito instrutivas (bem melhor que as de Port que com as suas revistas do menino “Pedrinho” não convenciam ninguém).
Mas havia algo tenebroso e maléfico à volta das mesmas. Algo que 2 dos outros elementos recordarão de imediato. Uns ténis, de marca Asics Tiger, companheiros de Dar nas suas maratonas e longas caminhadas. Dissuasores quanto baste, assim mesmo, ele não recuou e sem “pestanejar” entrou e saiu do quarto de Dar, com as ditas debaixo do braço. E como Waick recorda com saudade todas as folhas “soltas” da Gina, segundo ele, musas inspiradoras. Waick não recorda com exactidão a duração do seu turno, mas assegura com firmeza e devido à força da idade, que dava para “ver” as revistas, pelo menos por 2 vezes. O pior era ter que acabar o turno e ter de explicar aos companheiros de armas quantos aviões tinham passado. E não é que lhe tocava quase sempre um da Alitália e outro da Air France? Vá-se lá saber porquê…

Nota: O Autor reconhece que as revistas em causa, poderiam ser “Tânias” e que os ténis de Dar, poderiam ser também de outra marca…

Waick

Qlim

Com a autoridade que me advém de ter lido o único livro que li (custou 1500$00, uma fortuna em 1987), estabeleço que o diminutivo de Franquelim é como lá em cima.

Memórias Waickianas - Parte 1

Aquela iria ser sem dúvida a mais importante corrida das 26 agendadas para o dia. Waick partiria do último lugar da grelha (assim tinha sido decidido pela FIA, na altura constituída e representada por Seth e Port).

"tu arrancas lá do último lugar, porque és o mais rápido;
o Saraiva arranca da Pole"

E assim foi. Cá mais para trás na ultima linha com Waick, encontava-se Port e o seu famoso Ligier, com ailerons traseiro e dianteiro, que faziam do "carro" o mais bonito do pelotão em claro contraste com o de Nuno Saraiva que lhe tinha sido ofertado por um gajo duma oficina do bairro e que tinha umas rodas "muita granjolas" mas nada aconselhadas para o efeito que se pretendia.
A partida iria ser dada por Clim (ou Klim, whatever...), que se encontrava na nossa companhia entretido a "desmanchar" um carro abandonado que por ali se encontrava. Ainda não lhe tinha surgido a ideia de contruir um "autocarro de esferas" já aqui mencionado por um dos companheiros.
Waick não depositava grande confiança num bom resultado, afinal era o último da grelha...
Mas a esperança renasceu quando a "FIA" o informou que

"podes dar 4 mãozadas"
desculpa? retorquiu Waick
O Saraiva pode dar 1 mãozada, o Pires 2 e tu podes dar 4"

Clim deu a partida e tudo correu pelo melhor. Sem atropelos nem toques, ao fim dos primeiros 30 metros da descida, já toda a gente tinha ultrapassado o Saraiva, sinal evidente da normalidade da corrida. Nos seguintes 50 metros da mesma, mesmo no fim da traseira do prédio da "Sandra Pachacheira", Waick ultrapassara os restantes elementos do pelotão, colocando-se em segundo lugar logo atrás de Seth.
Waick acreditava cada vez mais na vitória e faltava ainda boa parte da recta do circuito, onde normalmente, graças ao seu peso "extra" e aos seus rolamentos dianteiros minúsculos, ele conseguia obter o maior binário de todos os participantes.
Ultrapassado o último dos obstáculos (Seth) Waick já via a chegada à Escola das Olaias como um sonho concretizado, mas de repente...

"Fo**-*e, o gancho, devia ter travado um bocadinho antes...

Tarde demais. Já estavam todos uns em cima dos outros e ninguém conseguia passar por lado nenhum (A FIA tinha sido bem clara quanto ao pisar do risco que delimitava a pista).
E ali mesmo, aconteceu uma reunião extraordinária da FIA, que deliberou em segundos, que Waick podia dar "1 mãozada" e os restantes "2 mãozadas" porque senão ainda para ali estavam.
Dada "a mãozada" Waick cortou a meta (lembra o autor, que a meta era 10 metros depois do gancho), logo seguido por Seth, que de imediato o parabenizou pela brilhante prestação:

"tu no gancho és sempre a mêma merda"

Terminada a corrida, o pelotão aguardou a chegada do Saraiva para vir com o grupo para cima.

Waick Banan

Notas do Autor: O grupo ficou a saber que aquela tinha sido mesmo a última corrida do dia porque o insano Clim, tinha pegado fogo ao carro abandonado;
O Autor pede desculpa a Port e a Dar mas de todo se lembra da classificação dos mesmos na corrida.


Um grande abraço a todos "and it's good to be back"..

Grand Prix

O primeiro papa-campeonatos de Formula 1 qu' houve tripulava um desses que vedes lá em baixo. Ganhava corridas que Deus-o-dava. Foi no tempo em que bastava 15 corridas para fazer um campeonato mundial, coisa que podia acontecer numa tarde ou ficar para acabar no dia seguinte. E depois havia sempre mais temporadas. Houve sempre até...
Bom! Pelo menos até alguém perder um rolamento de esferas ou quebrar um eixo de pau de vassoura. Nessa circunstância interrompia-se a temporada para reparações mecânicas no motor-home.
Naquele tempo um circuito de fórmula 1 que prestasse tinha necessariamente que ter um gancho, para triar os pilotos mais talentosos. As inovações mais originais dos projectistas de topo eram muito copiadas e aplicadas nos bólidos de esferas do fundo da grelha: ele era spoilers dianteiros; ele era ailerons traseiros; ele era engenhosas soluções de encastrar rodas à marretada em eixos de pau de vassoura dispensando quaisquer pregos; ele era autocarros de esferas (uma originalidade que fez lembrar o Tyrrell de 6 rodas).
E no meio disto havia um notável desportivismo (uma coisa que o alemão rapa-tudo de hoje desconhece, hem). Ficou nos anais um raro gesto de generosidade da maioria dos pilotos: deixar ganhar o Nuno Villeneuve Saraiva, o eterno último em todas as corridas (e partia sempre na pole position). Assim foi. No fim da corrida, aquele Villeneuve das esferas tanto gritou, tanto saltou de alegria a caminho de pódio, tanto balançou com o Ferrari de rolamentos no ar que...
E depois não houve mais temporadas.

McLaren de Esferas

O João Martelo saberá quanto custa um vidro martelado para aí de 2,5m x 1m?

Ele está a chegar. Preparem-se!

Sobre o pretenso morto

Julgo que todos os meus confrades do Justo conhecem a história da morte do Barroca. Sabem também que não terá havido nenhum Barroca pela Picheleira e que o pretenso morto tinha outro nome (que preferi não divulgar). Adiante.

Porque como nenhum dos meus amigos estava presente quando ouvi uma genuína pérola de sensibilidade, não resisto a reproduzir aqui uma quadra que ouvi da boca do tal morto que só morreu mais tarde.

Estávamos a entrar num carro onde tínhamos conseguido boleia para um jogo do VCL fora de portas (dou de facto a ideia que passei a vida a andar à boleia) e havia alguém que demorava a passar para o banco de trás.

Pelo que eu sei da qualidade, aspecto e natureza de quem andava à boleia para as jogas da Vitória, arrisco a que ele devia ter uma perna mais curta que outra ou mesmo não ter uma perna (ou até não ter nenhuma delas).

Farto de esperar e porque a morte andava à espreita, o Barroca-que-não-se-chamava-de-facto-Barroca, largou o seguinte comentário:

Anda lá agora
Ó meu poeta lirú
Tira-mo já da boca
E põe-mo depressa no cu

(conclusão)

O nobre planeador

Diz quem viu que o cigano Sebastião vinha desalvorado a subir a Perry Vidal. Ainda tinha migalhas de pão pela barba e, no colete, os botões estavam apertados em desalinho. Todo vestido de preto, parecia uma noite mal dormida.

Quando chegou ao pé do Barão, logo retorceu a cara num esgar:
- Ó Sô Barão, disserem-me que o mê Blé ‘tá p’Aveiro. Veja lá você. Nã sei que faça. O miúdo sem regular bem e anda p’ali tã longe.

Toda a gente sabia que o Blé não funcionava bem da cabeça. Ali no bairro ou para os lados da Alameda, passava os dias a fazer saltar as velhas de susto. Chegava-lhes por trás e, com um grito enlouquecido, punha-as a mancar para longe. Depois afastava-se, enquanto elas regressavam ao local do acidente para apanhar o casaco de malha ou o molho de bróculos que tinham ficado como prova da malfeitoria.

E como esse era o seu prazer de uma vida, não surpreendeu a ninguém o ar de estranheza do Barão:
- Em Aveiro? Mas o que é que ele foi para lá fazer? Vai na volta tem para lá alguma namorada…

Com o lábio a estremecer, o Sebastião fez um ar de pena:
- Ó Sô Barão, você sabe que ele nã pensa bem. Ele nem quer mulher. Deve-se ter perdido, o maluco. Você é que me fazia um favor e ía lá buscá-lo no táxi.

Circunspecto, o Barão juntou o polegar e o indicador em volta do bigode:
- Epá, isso fica muita caro. Ir agora p’Aveiro. E ainda vir… E depois um gajo tem que comer uma bucha pela caminho.

O cigano Sebastião endireitou-se e tirou um molho de notas:
- É mê filho. P’alma da minha mãe. Qué’ lá saber do dinheiro. Olhe, estas aqui chegam?

Enquanto contava as notas de mil, o Barão assoprou longamente:
- Olhe, Sebastião, vou lá porque é p’ra si. Somos amigos há vinte anos. Epá, ir agora p’Aveiro. Bem…

Diz quem viu que o Barão levava um enigmático sorriso quando meteu a chave à porta do Mercedes. Mas como os bairros antigos são autênticas coutadas de maledicência, assim fica a verdade por saber.

De igual modo, e por muito que se conte à boca livre, podem até ser mentirosos os que juram ter visto o Blé a sair um par de dias antes no táxi do Barão.

Aliás, nunca se irá saber se o Barão estava mesmo a dar-lhe duas notas de quinhentos quando o largou na Estação de Santa Apolónia.

Diziam os amigos do Barão que ele não era homem para fazer uma coisa daquelas:
- Ele é reinadio, mas alguma vez punha o Blé num comboio p’Aveiro?

Já os conhecidos do Barão apostavam que ele era o homem do plano:
- Vocês parece que ‘tão esquecidos da gente que ele já matou?

Esse, sim, era o ponto fraco do Barão. De vez em quando, movido por uma qualquer sinistra inspiração nocturna, o Barão saía de casa antes do raiar do sol com um objectivo bem definido: matar alguém.

Nunca ninguém o tinha visto com olhos raiados de fúria, enquanto escondia nervosamente uma pistola.

Também não houve quem desse com ele a lavar no chafariz o sangue fresco que escorria de uma faca.

Mas testemunhas não faltavam quando ele pregou com fita-cola um papel na montra da drogaria. O papel era rectangular, branco com uma moldura preta e tinha uma cruz no meio. Era um anúncio de finados.
- Então, ó Barão, quem é que morreu?
- Epá, nem digas nada. Foi o rapazito da drogaria.
- Quem, o miúdo?!
- Sim, pá. Acho que ia a conduzir com os copos e espetou-se numa curva ali p’os lados de Caneças.
- Eh, caraças, um puto tão novo, pá.
- Vê lá tu bem. Até fiquei p’a morrer quando o pai dele me ligou.

E, quando na Picheleira, se lamentou a morte do Barroca, foi também o Barão quem o deu a anunciar.
- Foi isso e outro que já lá está, coitado.
- O quê? Morreu alguém?
- Então, ‘inda não ouviste nada, pá? Foi o Barroca, pá.
- O quê, o Barroca?!
- É verdade, pá. Ainda ontem ‘tive a falar com ele na sede e olha…
- Mas ele andava mal?
- Acho que era do diodeno.

Era impressionante o manancial de informação que o Barão parecia ter. No que tocava a mortes, era como se tivesse um cunhado a trabalhar na morgue. Chegava a saber antes das famílias.

Aliás, ele até sabia antes dos falecidos. Porque, na realidade, os falecidos não chegavam a morrer. Eram mortes de fingimento.

Era ele, como quem remata uma bola de matraquilhos antes dela bater no contraplacado, que os matava sem lhes dar prévio conhecimento.

HCESAR

Andar ao bilhete?

Noutro sentido (e com pouca inspiração - a hora vai adiantada) fica a bilheteira do Vitória em 1960 (neste dia não havia jogo). Podem os confrades escolher a parede e a moldura para se pendurar.


Devemos agradecer ao Artur Goulart e ao Arquivo Fotográfico da C.M.L..


Esquecia-me de dizer: Manel Lampan, Tinitin, Vitaminas, Pelé, Pequelé, Príncipe, Totina, Careca, Nhó, Ramona, Blé, aquele cigano de nariz achatado (cafeteira?), Zé Lino, Olho (ou Olhinho, ou Olho de Goraz), Clotilde Maluca, Galego, Nelcho, Mateus pxxxxxxxx, Cabrita, Toqui (ou Tó Quim) Cabeçudo, Pedro Carro, Panzer, Panzerina, Françuá, Ruizinho da Júlia, Acha, Zé Alfaiate, Gramunha, Escuna, Galapito, Penico, Nabo, Rui Taranta, Nini, Vítor Duarte do Lugar, Matos, Baixinho, Celso, Cristina das gémeas, Paula das gémeas, Aquela Chavala Gorda, Vanzelera, Luda, Mitó, todas as Cajocas, Sandra Bagaço, Ti Araújo, Ma-Ma-Matos Cruz..., Tóino sem dedos, Ilda do Macaco, Jaquim Nove Dedos, aquele gajo do Casal do Pinto que andou comigo na 2ª classe e chumbou e que muitos anos depois me viu e veio falar à entrada do Centro das Olaias, Açaime, Bibita, Zé Malveira, Brux, Virita, Lojinha d'Avó, Foto Lalita, Ponto Final.

E já agora, porque não: Sexo Mamalhudas, WorldSex Hardcore Sex Pictures, Movies, Free Porn Videos, XXX Live Sex Cams e IURD.

Toque curto, toque longo

Primeiro, despachou-se o Olivais e Moscavide com um golo solitário. Depois, o Bé marcaria dois golos contra um no campo dos Pescadores da Costa da Caparica.

À 3ª jornada, recebeu-se o Fronteirense com quatro bolas a zero. E a acabar o jogo no Atlético do Cacém, o Vital (um negro de cabeça ogival e pernas arqueadas) fez o tento solitário.

No Domingo seguinte, o Campomaiorense (que se dizia tinham o maior orçamento da 3ª Divisão) adiantava-se no marcador, mas regressou ao Alentejo com um score de 1 a 3.

Com cinco triunfos em cinco jogos, “A Bola” noticiava “Vitória da Picheleira faz o pleno”.

A saída ao Cartaxo podia ter corrido melhor, mas o Braga também lá tinha empatado para a Taça. E, depois, à 7ª jornada, o Odivelas seria mais um a engrossar o rol das vítimas.

No meio desta senda demolidora, a moral estava em alta e a deslocação ao Santa Iria parecia um mero cumprir de calendário.

Na Sexta-Feira anterior, propus-me ao Waick Banan:
- O teu pai vai?
- Ainda não lhe perguntei.
- Se ele for, achas que dá para a boleia?
- Bem, se ele levar o carro, só vamos os dois.

Depois de muito rondar, o dia seguinte acabou por garantir a tão desejada posição. Só tinha que aparecer em frente à tasca do Saraiva às duas da tarde. O que eu fiz com suíça precisão, pois sabia que o Sôr Oliveira gostava de ir para a bola com tempo.

Quando entrámos no carro, o Waick foi avisado num ressalto:
- Vai lá p’atrás. O Conas também vem.

É sabido que o banco do navegador é, em si, um atestado de emancipação para um adolescente. Quando não se tem idade para a carta, ir ao lado do piloto é, na realidade, o prestígio possível. Assim, foi contrafeito que o Waick passou para trás.

Em baixa rotação, o motor ia chegando ao fim dos religiosos cinco minutos de aquecimento. No meu pulso, o relógio já seguia a caminho das duas e um quarto. No assento da frente, as molas davam de si, impulsionadas por um Sôr Oliveira que, a esta hora, já contava estar por Sacavém. Do Conas, não havia nem sinal.

Às 2 e 25, o acelerador já rugia nervosamente, ameaçando um minuto para a partida. Foi então que a porta se abriu num repelão. Primeiro, vi uma camisa desfraldada e manchada nas costas por um triângulo invertido de suor. Na mão direita, o lenço viajava da testa para os cantos da boca. Húmido e afogueado, tinha chegado o Conas.
- Ouça lá, eu não disse para vossemecê estar aqui às duas?
- Ó Sôr Oliveira, você não queira lá saber. Estava a sair de casa e não é que me dá o toque?

Contou-nos depois, em angustiado relato, que só tinha tido tempo de chegar à retrete. Ele ali em aflições e a ver as horas a passar.

Em Santa Iria, o relógio também não dava tréguas e quando chegámos ao campo, os jogadores da casa festejavam o seu primeiro golo.

Nesse dia de Novembro de 87, as coisas não correram bem. Os nossos, costumeiros na arte do toque curto, não tinham conseguido assentar o jogo.

Ao contrário do Conas, que assentara o seu jogo na base do toque longo.

A Alcunha

Peço desculpa aos desorientados amigos por ter trazido para o Justo um tema estrangeiro às nossas rodadas.

Mas não resisti a fazer um verbete onde podesse escrever as palavras VITINHA PODRE.

É que, para mim e salvo algum desacerto de memória, esta continua a ser a alcunha de todos os séculos.

Macho, macho man...

Em 78 ou 79, as vozes de que a música andava com tons de rosa-choque não se faziam ainda ouvir. Aqueles eram os dias do Disco Sound.

Pela América, as bolas de espelhos já iam deixando de rodar nas discotecas e as calças voltavam a fechar a boca de sino.

Mas, no bairro, a juke box da Vitoriana ainda gritava “In the Navy” e “Born To Be Alive” em loops formidáveis. Oitenta por cento dos homens ainda tinha bigode e calçar socas de madeira era até sinal de virilidade.

Do mesmo modo, o cinema era destemido e transpirado. Os cartazes no Roxy e no Pathé alternavam o Trinitá com o Bruce Lee (ou Burcelim, como se dizia na altura) e só os mergulhos na Alameda competiam com essas vigorosas matinés.

Nesses tempos, a Praceta dava ares de Faroeste. Ali, homem que fosse homem tinha a sua matracazita. E não havia equimoses que os parassem. Pelo menos, até conseguirem dominar o golpe de mão direita sobre o ombro esquerdo para recepção com uma roda do pulso do mesmo lado. E uma vez alcançado o feito, havia que rematar com uma careta de Kung-Fu. Assim à Burcelim, com os dentes cerrados e os olhos bem arregalados.

Vindo do nada, havia sempre alguém a ensaiar o golpe de cutelo. Ou a revisitar a cena em que o Bud Spencer tinha posto um cavalo a dormir com um murro.

De vez em quando, alguém procurava inovar, procurando ganhar o Cinturão Negro no respeito dos outros. Lembro-me particularmente do Vitinha Podre a subir a uma árvore, pendurado de cabeça para baixo e dobrado num ramo pela parte de trás dos joelhos. Lembro-me dos urros que ele dava, enquanto agitava o vazio com múltiplos golpes de cutelo. Lembro-me do crrrrrec do ramo ao partir-se e do Podre a aterrar na zona onde o pescoço passa para as costas.

Atirámo-nos para o chão numa trovejante gargalhada, mas alguém disse mais tarde que o viu levantar-se logo de um pulo, em prontificada posição de ataque. E parece que tinha os olhos bem arregalados.

Enfim, aquilo é que eram tempos de homem. É certo que ninguém ali tinha mais que 14 anos, mas não havia dia que passasse sem alguém andar ao bilhete. Tudo começava com um “Ehh, g’anda baile. E tu ficas-te???”.

Era só o que bastava. Porque ninguém se ficava. E partia-se de imediato para minuto e meio de golpes fatais, que certamente entrevariam um corpo menos treinado a receber os mortíferos impactos.

Como homenagem e para superior orgulho, foi-se até buscar uma canção dos Village People para dar nome à equipa de futebol da Praceta. E quando se via aquela bandeira feita de pau de vassoura, com as palavras “Macho Man” a ondularem ao vento num lençol já gasto, até se jogava melhor.

Era como se o campo estivesse a descer, vergado ao poder de um poderosa matraca humana.

Bem, na verdade...

Se bem que seja pertinente, não vou desculpar-me com os 24 anos de distância. Podia antes dobrar-me pela cintura e abrir os braços numa espécie de “desculpa lá, ando com umas cólicas de arrasar”.

Mas como isso não é verdade, vou-me antes ressarcir com um convite para lauto repasto na Portugália (o da Almirante Reis, onde os empregados ainda nos tratam como estrume – belos tempos).

Em suma, tens razão, pá.

Só não acho delicado levantar uma memória bera do Waick. Ele era semítico, usurpador e transpirava em demasia. Mas, por Deus, tinha belos fatos de treino.

Sobre a loucura do Clim

Quando penso na loucura do Clim, a minha cabeça viaja logo para o dia em que o vi com o Lassiléri, seu companheiro da louca a entrar na Pastelaria Carícia:

- Ó Fernando, dá aí dois branquinhos à gente, pá.
- Olha-me pr'a esta dupla fantástica. Um é o Andy Gray e o outro é, deixa cá ver, olha pronto é o Johnny Bosman!

Já para não falar do dia em que, juntamente com o irmão do Seth Sacannalive, os vi na Calçada da Picheleira:

- Então Clim, onde é que vão?
- Olha... vamos prá Alfredo da Costa. Vamos chupar o sangue das gajas que andaram a parir os putos. Ai ca bom...

E riam, riam, riam....

16 de Maio de 1982

Não é realmente meu hábito andar a desmascarar nebulosas e caluniosas intenções de deitar abaixo a moral e a hombridade da minha pessoa. Normalmente cago para o assunto.

Por isso mais que um ajuste de contas, estou aqui a repôr a veracidade histórica dos factos aqui relatados.

Lá pela Primavera de 1982, o nosso querido Waick Banan não estava muito bem visto perante o resto dos seus pares. Ou por ter sido outorgado por um joguinho electrónico o qual nunca era emprestado a ninguém "eh pá, joga mais devagar, caneco. olha que me aqueces os comandos!" ou por ser um semítico do camandro ou ainda por outra coisa qualquer que agora não me alembra.

Essas suas manias valeram-lhe duas sentenças, uma minha e outra do Burrié: nem apareças lá em casa, ouviste!

Valeu-se da ausência de comunicação entre os pais e os filhos e apareceu sem convite no aniversário do Burrié. Apesar dos meus avisos lá na festinha, fez ouvidos moucos e a meio da primeira parte - já nós os três mais o Pires e o aniversariante cabeludo estávamos de volta do televisor a apostar prognósticos para o resultado - decide tocar à campaínha a ver se a coisa pegava. Foi lá a minha mãe abrir a porta: "Entra meu querido, o jogo já começou."

Entrou perante os olhares reprovadores de nós todos, sentou-se e, ao saber que tinhamos feito alguns vaticinios, prognosticou "O resultado vai ficar em 5-3".

E ficou! Golos de Cristiano (2), Chana (2) e Zé Carlos. Foram também campeões do mundo Fernando Pereira, Franklin, Leste, Ramalhete, Sobrinho e Vítor Rosado.

Estamos entendidos?

Clim

Acho errado chamar-lhe Quelim. É certo que vem de Franquelim, mas foneticamente a coisa não saía como Que-lim.

Por isso, sempre vi a palavra como Clim. Assim, de um só tiro: Clim. Como o trrim do telefone e não o te-rrim.

Feita a introdução, tenho apenas a dizer que não acho que se deva utilizar o nome do Clim de ânimo leve. Bem vistas as coisas, ele é um Ser Original.

Ao fim das contas, quantas mais pessoas se podem conhecer na vida que tenham:
a) Construído um autocarro de esferas;
b) Comido um caracol cru e limpo seguidamente a boca a uma alcatifa;
c) Ficado loucos aos vinte-e-tal anos.

Remate de meia-distância

Porque o colega Quelho decidiu vir aqui choramingar as suas razões, decidi-me assim recuperar aqui um dia negro que o hóquei (e o seu feitio, caro amigo) produziu.

É que o colega Quelho foi lesto na sua defesa (assim tivesse ele sido na baliza), mas não se esqueça o senhor de – em plena festa de anos do Zé Burrié – ter excluído o aniversariante da Final do Campeonato de Mundo de 1982.

O jogo era em Barcelos contra a Espanha e a sua televisão era a única que trazia o jogo para Lisboa a cores, mas o senhor prontificou desde logo a desfeita:
- Podem vir todos ver menos o Zé Burrié.

Aliás, foi desse ingrato episódio – e porque o Burrié foi à mesma – que surgiu a frase de uma época (tantas vezes repetida e muito pouco acatada):
- Sai da casa.

Relembro que o colega Quelho tinha estado duas horas antes a comer baba de camelo no quintal do Burrié. Por isso, o intruso (justificadamente, a meu ver) deixou-se mesmo estar por ali.

Formar-se-ia assim o precedente para algo que você sempre teve dificuldade em entender. É que, caro colega, em sua casa o senhor nunca mandou nada. Pelo menos, até que nós decidíssemos dar-lhe esse poder.

Quelho

Porra, há coisas que eu não admito. Quer-se dizer, então não é que começo aqui a ver registos pouco abonatórios sobre o grande Quelho?

Eu quero aqui recordar aos meus companheiros de tasca (qual confrades, qual carapuça) que isto de só demonstrarem e relatarem a história do hóquei não-patinado apenas pelos livros de registos das finais dos campeonatos tem muito que se lhe diga.

Recordo aqui que eu, Quelho de nome artístico, não teve esse célebre enorme stick verde (originário dumas prateleiras velhas da loja do meu pai) durante toda a história do hóquei da Capitão Roby. O meu primeiro stick era barrocamente trabalhado e cortado com serra tico-tico, na black & decker workmate do meu pai. E meus caros leitores, relembro que com esse mesmo stick fiz memoráveis golos, daqueles de passar por detrás das balizas, rematando depois por entre o meu braço direito e a minha ilharga, passando a bola pelo buraco da agulha.

E não só. Bem sei que não tinha a habilidade do Burrié, quer à baliza (fazendo as tais defesas com o pé levantado, à Ramalhete) quer no ataque (o gajo era o nosso Leste, porra. até tinha cabelo à Leste e tudo), mas são uns malandros em terem desprezado os anos pré-stick "à Quelho".

Aliás, foi esse mesmo stick que teve o seu final infeliz, num jogo em que andei à bulha com o Port, a quem, por vingança, prometi reter-lhe ad aeternum o single do Tainted Love. Ora acontece que na marcação dum livre, o Quelim colocou-se de forma estratégica, a fim de impedir o meu remate. Erro meu, levou com o stick na testa. Como paga por esse gesto mais fatela mas inteiramente involuntário (juro, pá), foi o famigerado stick enxovalhadamente partido e atirado para aquela sargeta localizada de fronte do Martins (a propósito, oh Seth, os primeiros caixotes foram roubados da Mercearia do Albino, pá. o gajo tinha-os escondido, numa escada ao lado do seu estabelecimento que lhe servia de armazém).

Ora pior do que essa humilhação, foi logo de seguida ter ouvido as portas de madeira da escada do meu prédio a baterem com estrondo, anunciando a chegada do Port Portridge. O gajo, tinha ido a minha casa, resgatar o seu Tainted Love:

- Ó Quelho, lembraste de me dizeres que irias riscar o meu disco dos Soft Cell? Olha, ele aqui tão lindinho. Incha, cabrão!

O pau não se quer grosso

As épocas desportivas sucediam-se sem lógica nem fundamento. Por exemplo, o caminho da meia-piras para a matas era sempre feito no Inverno, com os berlindes a deixarem rasto na lama. E as corridas e os saltos à volta da Praceta eram feitos em pleno Verão, à torreira do sol.

Já o hóquei tinha a sorte de evoluir em recinto semi-coberto, pois as tardes traziam sempre a sombra à Capitão Roby. E aí, em tempo de Chanas e Sobrinhos, a moral da história era como a moral da vida: safava-se melhor quem tinha o pau maior.

O Chico do Talho dava a caneta e o papel para marcar o score e o Martins emprestava os caixotes da fruta que faziam de balizas. Até aí, tudo bem. A polémica só aparecia mesmo com o tamanho dos paus.

Haviam três guarda-redes para três equipas de três jogadores. O Quelho não tinha muito jeito para a função, mas tinha um stique quase da altura da baliza que arrastava perigosamente à aproximação dos joelhos dos avançados.

O Malveira não era bom nem mau, mas como tinha óculos e um stique mais baixo não ameaçava o ímpeto goleador do Brux e do Bibita.

Já o Zé Burrié era o melhor, um fino estilista na baliza que até fazia defesas de perna alta. Mas como tinha o stique mais fino, era o mais batido dos quíperes. Ele bem se queixava do pau do Quelho, mas os números é que contavam. E como o seu pau era tão fino como a caneta que anotava os golos, lá aparecia ele no papel como o guarda-redes mais comido.

Durante um par de anos, a polémica manteve-se. E como nunca aparecia ninguém do Sesimbra ou do Paço de Arcos para vir dar razão ao Burrié, lá andava ele comido pela tristeza.

Mas chegou um dia - que doravante a história consagraria como o último dia em que se jogou hóquei na Capitão Roby – em que seria feita justiça ao Zé Burrié.

Mercê de conversações de altíssimo nível, combinou-se um jogo internacional: a Capitão Roby iria receber ali no seu feudo o time dos Embrechados (Nota de Redação: uma vénia ao PORT-entoso amigo).

Tudo estava preparado. Os couratos esturricavam na brasa, as cassetes com os hinos estavam prontas para tocar e a equipa inicial estava definida. Com o Burrié a jogar a efectivo. Afinal, ele até fazia defesas à Ramalhete, levantando a perna para defender as bolas altas. Finalmente, ele iria mostrar quem era o Maior. Mesmo tendo o pau mais fino.

Quando o jogo começou, percebeu-se que o adversário não tinha ninguém com o virtuosismo do Bibita ou com o sentido de oportunidade (na altura, dizia-se estar à mama) do Brux. Eram mais físicos, assim à espanhola. E não havia mais que dois ou três minutos de jogo, quando o Bloga, o famigerado defesa dos Embrexados, tentou afastar uma bola que lhe ameaçava a baliza e com uma fortíssima porrada, acertou com a ripa na matrícula da lambreta do Chico do Talho.

Ao ver metade da matrícula no chão, o Chico (sem tirar o avental) irrompeu pelo campo adentro, pondo em fuga toda a equipa dos Embrechados.

Para todos os efeitos, ganhámos dez a zero por desistência. Mas perderíamos a actividade do Verão, porque o Chico nunca mais emprestou a caneta e o hóquei nunca mais abrilhantaria o alcatrão da Capitão Roby.

Já o Zé Burrié tinha feito uma despedida em beleza. No seu último jogo, e mesmo com o pau mais fino, não tinha sofrido um único golo.

Seja Justo

Peço ao excelso correligionário que não desfaça no careca.

Ou tenho que lembrar que a agulha do seu gira-discos (sim, aquela com a moedinha em cima para não saltar) fazia rodar com frequência os três ele-pês que o senhor tinha comprado da banda?

Ou quase envergonhá-lo dizendo que até comprou o "Secret" em 84, quando o careca já nem era convidado para os Sábados de Manhã do Júlio Isidro?

Despeço-me com caloroso abraço

Já cá faltava o careca...

Classix Nouveaux - Guilty

Quem? Keeble? Nunca ouvi falar...

Falou-se por aqui do John Keeble. Recordo aos companheiros de balcão (por falar nisso, temos que pedir ao Justo para passar alguma serradura neste chão que isto está uma vergonha) que ele não só era feio, como foi severamente batido pelo B.P. Hurding na votação de Melhor Baterista do Mundo.

Voto agora para que John Keeble, essa vergonhosa excepção, nunca tenha pertencido aos Spandau Ballet.

Filipe Broche: o Verbete Definitivo

Desenterrando a memória do labioso Filipe Broche (que Deus - se for esse o caso - tenha as suas envenenadas veias em descanso), recordo aos caros confrades que a aleivosia do sujeito não se ficava apenas por Spandal. Havia também o apelido: Spandal Balô.

Mas, enfim, qualquer tipo que só tenha acordado do concerto dos Iron Maiden quando a equipa de limpeza já estava a vassourar o pavilhão do Dramático de Cascais, merece bem os nossos parágrafos.

Por esta altura, lá andará ele (onde quer que esteja) a dizer aos putos que levar no cu dá músculo.

duran vs spandau - o vídeo

duran vs spandau - a história

Dentro do Bar do Justo, sempre houve as nossas rivalidades: dar braxton era (e sou, porra!) do porto e do piquet, port portridge era do sporting e do prost, seth sacannalive era do benfica e do piquet e o waick banan era também do benfica mas nas velocidades era do pironi - que deus tem, ali mesmo ao lado do joão ferreira.
Assim, conclui-se que as três cores futebolisticas estavam bem representadas lá no bar e que na fórmula um os pilotos favoritos começavam pela letra p.

Mas as rivalidades à séria aconteciam na música. Nós, os machos gostávamos dos Spandau Ballet e as meninas gostavam dos Duran Duran. Tão simples como isso. Dessas rivalidades, nasciam discussões parvas (ou não, ou não) sobre quem seria a melhor banda. Ou porque uma tinha saxofonista e a outra não, Ou porque uma tinha uns telediscos mais bacanos que os da outra banda. Ou porque uma tinha uns gajos mais giros que a outra e ambas tinham bateristas feios (o John keeble é feio, ou não?).
Para nós os quatro, o que realmente interessava é que uma banda que faz uma canção com a frase "shattered glass reflects elation" merecia toda a nossa consideração. Mais, ao segundo disco já os Duran Duran não eram muito bem futuristas. Ok, eu aceito que o The Chauffeaur seja futurista, mas o Diamond tinha o Pharoah - futurista até ao tutano - e tinha a célebre frase "stealing cake to eat the moon". Ela há coisa mai futurista que esta frase?

O que é certo é que nunca chagámos a saber quem é que realmente eram os máióres - atenção, para nós não havia dúvidas. Ainda se fizessem uma futebolada entre eles... Mas não. A coisa mais próxima disso foi terem ido à televisão, degladiarem-se num concurso com perguntas sobre música.
Não era bem o decatlo mas parecia-me uma disputa justa. O pior é que o vídeo que aqui apresento não chega até ao fim. E no final do mesmo, as coisa estavam empatadas 14-14.

Agora há coisas que me ficam cá atravessadas, então não é que o marreco do Martin Kemp não sabia quem eram os Fiction Factory?

Oh, deus do céu. Tinhamos ganho aquilo, pá...

filipe fellatio

raispártó verbete que se me desapareceu quando andava em experiências. e logo agora que nem sei muito bem o que escrevi.

prontos, lá terei de rebobinar a imaginação e tentar reescrever o caneco do verbete sobre a batalha televisiva entre os duran e os spandal.

a propósito, a gente tem de fazer uns posts sobre as alcunhas do pessoal lá do bairro.

isto só por que me lembrei que o maduro que dizia spandal era o grande Filipe Broche.


Mas...

Mas agora nem os gatos fedorentos?!...
Mas...
- Mas que quererás, rapaz!

Da jenela

O meu querido confrade Seth disse coisas muito acertadas sobre a panorâmica cá da taberna (epá! Embraixados diz-se Embrechados. Olha que as pessoas notam).
- Custava-te muito teres abrido a jenela?!

Mar da Palha (© Portridge 1989)
Vale de Chelas, Marvila e Mar da Palha, Lisboa, c. 1989.

[Mas agora é de noite e vê-se mal.]

Bi bibi bibi... Mas que raio!

Eu vi os Duran Duran. Vi-os lá com os 'Spandal' (como era o nome daquele Manuel que dizia Spandal?). Tenho a certeza que vi! Mas agora estão os gatos fedorentos.
Querem lá ver!... Devo estar com os copos!

Tudo à vista

Sou do tempo em que se dizia que do bar do Sheraton havia a melhor vista de Lisboa. Acabei por só lá entrar em ’99, mas confesso que nem me cheguei às janelas. Nessa altura, já não interessava. Porque nada nunca poderia bater a panorâmica do Bar do Justo.

Dali via-se o Tejo, duas linhas de comboio, o Barreiro a cacilhar, as torres de iluminação do campo do Vitória e, no fim, os aviões da Varig e da Sabena em ronda vigilante aquilo tudo.

Depois, à distância de um assobio, conseguíamos perceber o Mané Mané a entrar em casa coberto de papelão; o Bloga e o China a negociarem as ruas de meio metro de largura dos Embraixados; o Caralhó – que era neto da Pona, que andava amigada com o 27 quando a venda de caracóis lhe dava tempo para isso – no seu passo indolente de dez para as duas; a Mónica Cara-de-Homem e as suas carbonosas solas dos pés; o Cabrita que insistia no “I ran” dos A Flock of Seagulls como se daí dependesse a sua vida. Enfim, só para lembrar algumas figuras deste folclore diário.

O Bar do Justo, pode-se assim dizer, estava aberto para a vida. Sem horário (bastava que alguém lhe abrisse as portadas forradas de plástico crispado pelo sol) nem balcão (tinha-se que entrar lá já aviado), era um sítio de se estar.

Mas, de tão aberto estar, o Justo tinha tanto de observatório como de alvo de observação. E, depois, num bairro há sempre invejas. Bastou, por isso, a vizinha do 2º esquerdo do prédio do Saraiva não ter mais que fazer. Daí a fazer a queixa bastou apenas subir uma rua. Quando a autoridade irrompeu no Bar do Justo, o embargo foi logo decretada à chapada.

Eram outros tempos e não deu para interpor recurso. Mas o plástico que forra as portadas ainda hoje se vai aguentando.




Google Docs & Spreadsheets -- Web word processing and spreadsheets. Edit this page (if you have permission) | Report spam