Bar do Justo


Tudo à vista

Sou do tempo em que se dizia que do bar do Sheraton havia a melhor vista de Lisboa. Acabei por só lá entrar em ’99, mas confesso que nem me cheguei às janelas. Nessa altura, já não interessava. Porque nada nunca poderia bater a panorâmica do Bar do Justo.

Dali via-se o Tejo, duas linhas de comboio, o Barreiro a cacilhar, as torres de iluminação do campo do Vitória e, no fim, os aviões da Varig e da Sabena em ronda vigilante aquilo tudo.

Depois, à distância de um assobio, conseguíamos perceber o Mané Mané a entrar em casa coberto de papelão; o Bloga e o China a negociarem as ruas de meio metro de largura dos Embraixados; o Caralhó – que era neto da Pona, que andava amigada com o 27 quando a venda de caracóis lhe dava tempo para isso – no seu passo indolente de dez para as duas; a Mónica Cara-de-Homem e as suas carbonosas solas dos pés; o Cabrita que insistia no “I ran” dos A Flock of Seagulls como se daí dependesse a sua vida. Enfim, só para lembrar algumas figuras deste folclore diário.

O Bar do Justo, pode-se assim dizer, estava aberto para a vida. Sem horário (bastava que alguém lhe abrisse as portadas forradas de plástico crispado pelo sol) nem balcão (tinha-se que entrar lá já aviado), era um sítio de se estar.

Mas, de tão aberto estar, o Justo tinha tanto de observatório como de alvo de observação. E, depois, num bairro há sempre invejas. Bastou, por isso, a vizinha do 2º esquerdo do prédio do Saraiva não ter mais que fazer. Daí a fazer a queixa bastou apenas subir uma rua. Quando a autoridade irrompeu no Bar do Justo, o embargo foi logo decretada à chapada.

Eram outros tempos e não deu para interpor recurso. Mas o plástico que forra as portadas ainda hoje se vai aguentando.

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