Toque curto, toque longo
1 Comments Published by Seth Sacannalive on sexta-feira, setembro 08, 2006 at 19:57.
Primeiro, despachou-se o Olivais e Moscavide com um golo solitário. Depois, o Bé marcaria dois golos contra um no campo dos Pescadores da Costa da Caparica.
À 3ª jornada, recebeu-se o Fronteirense com quatro bolas a zero. E a acabar o jogo no Atlético do Cacém, o Vital (um negro de cabeça ogival e pernas arqueadas) fez o tento solitário.
No Domingo seguinte, o Campomaiorense (que se dizia tinham o maior orçamento da 3ª Divisão) adiantava-se no marcador, mas regressou ao Alentejo com um score de 1 a 3.
Com cinco triunfos em cinco jogos, “A Bola” noticiava “Vitória da Picheleira faz o pleno”.
A saída ao Cartaxo podia ter corrido melhor, mas o Braga também lá tinha empatado para a Taça. E, depois, à 7ª jornada, o Odivelas seria mais um a engrossar o rol das vítimas.
No meio desta senda demolidora, a moral estava em alta e a deslocação ao Santa Iria parecia um mero cumprir de calendário.
Na Sexta-Feira anterior, propus-me ao Waick Banan:
- O teu pai vai?
- Ainda não lhe perguntei.
- Se ele for, achas que dá para a boleia?
- Bem, se ele levar o carro, só vamos os dois.
Depois de muito rondar, o dia seguinte acabou por garantir a tão desejada posição. Só tinha que aparecer em frente à tasca do Saraiva às duas da tarde. O que eu fiz com suíça precisão, pois sabia que o Sôr Oliveira gostava de ir para a bola com tempo.
Quando entrámos no carro, o Waick foi avisado num ressalto:
- Vai lá p’atrás. O Conas também vem.
É sabido que o banco do navegador é, em si, um atestado de emancipação para um adolescente. Quando não se tem idade para a carta, ir ao lado do piloto é, na realidade, o prestígio possível. Assim, foi contrafeito que o Waick passou para trás.
Em baixa rotação, o motor ia chegando ao fim dos religiosos cinco minutos de aquecimento. No meu pulso, o relógio já seguia a caminho das duas e um quarto. No assento da frente, as molas davam de si, impulsionadas por um Sôr Oliveira que, a esta hora, já contava estar por Sacavém. Do Conas, não havia nem sinal.
Às 2 e 25, o acelerador já rugia nervosamente, ameaçando um minuto para a partida. Foi então que a porta se abriu num repelão. Primeiro, vi uma camisa desfraldada e manchada nas costas por um triângulo invertido de suor. Na mão direita, o lenço viajava da testa para os cantos da boca. Húmido e afogueado, tinha chegado o Conas.
- Ouça lá, eu não disse para vossemecê estar aqui às duas?
- Ó Sôr Oliveira, você não queira lá saber. Estava a sair de casa e não é que me dá o toque?
Contou-nos depois, em angustiado relato, que só tinha tido tempo de chegar à retrete. Ele ali em aflições e a ver as horas a passar.
Em Santa Iria, o relógio também não dava tréguas e quando chegámos ao campo, os jogadores da casa festejavam o seu primeiro golo.
Nesse dia de Novembro de 87, as coisas não correram bem. Os nossos, costumeiros na arte do toque curto, não tinham conseguido assentar o jogo.
Ao contrário do Conas, que assentara o seu jogo na base do toque longo.
À 3ª jornada, recebeu-se o Fronteirense com quatro bolas a zero. E a acabar o jogo no Atlético do Cacém, o Vital (um negro de cabeça ogival e pernas arqueadas) fez o tento solitário.
No Domingo seguinte, o Campomaiorense (que se dizia tinham o maior orçamento da 3ª Divisão) adiantava-se no marcador, mas regressou ao Alentejo com um score de 1 a 3.
Com cinco triunfos em cinco jogos, “A Bola” noticiava “Vitória da Picheleira faz o pleno”.
A saída ao Cartaxo podia ter corrido melhor, mas o Braga também lá tinha empatado para a Taça. E, depois, à 7ª jornada, o Odivelas seria mais um a engrossar o rol das vítimas.
No meio desta senda demolidora, a moral estava em alta e a deslocação ao Santa Iria parecia um mero cumprir de calendário.
Na Sexta-Feira anterior, propus-me ao Waick Banan:
- O teu pai vai?
- Ainda não lhe perguntei.
- Se ele for, achas que dá para a boleia?
- Bem, se ele levar o carro, só vamos os dois.
Depois de muito rondar, o dia seguinte acabou por garantir a tão desejada posição. Só tinha que aparecer em frente à tasca do Saraiva às duas da tarde. O que eu fiz com suíça precisão, pois sabia que o Sôr Oliveira gostava de ir para a bola com tempo.
Quando entrámos no carro, o Waick foi avisado num ressalto:
- Vai lá p’atrás. O Conas também vem.
É sabido que o banco do navegador é, em si, um atestado de emancipação para um adolescente. Quando não se tem idade para a carta, ir ao lado do piloto é, na realidade, o prestígio possível. Assim, foi contrafeito que o Waick passou para trás.
Em baixa rotação, o motor ia chegando ao fim dos religiosos cinco minutos de aquecimento. No meu pulso, o relógio já seguia a caminho das duas e um quarto. No assento da frente, as molas davam de si, impulsionadas por um Sôr Oliveira que, a esta hora, já contava estar por Sacavém. Do Conas, não havia nem sinal.
Às 2 e 25, o acelerador já rugia nervosamente, ameaçando um minuto para a partida. Foi então que a porta se abriu num repelão. Primeiro, vi uma camisa desfraldada e manchada nas costas por um triângulo invertido de suor. Na mão direita, o lenço viajava da testa para os cantos da boca. Húmido e afogueado, tinha chegado o Conas.
- Ouça lá, eu não disse para vossemecê estar aqui às duas?
- Ó Sôr Oliveira, você não queira lá saber. Estava a sair de casa e não é que me dá o toque?
Contou-nos depois, em angustiado relato, que só tinha tido tempo de chegar à retrete. Ele ali em aflições e a ver as horas a passar.
Em Santa Iria, o relógio também não dava tréguas e quando chegámos ao campo, os jogadores da casa festejavam o seu primeiro golo.
Nesse dia de Novembro de 87, as coisas não correram bem. Os nossos, costumeiros na arte do toque curto, não tinham conseguido assentar o jogo.
Ao contrário do Conas, que assentara o seu jogo na base do toque longo.
Assentara, salvo seja, que deve ter sido na cadeira sem assento.
Soberbo!
Abraço,
Port