Bar do Justo


O pau não se quer grosso

As épocas desportivas sucediam-se sem lógica nem fundamento. Por exemplo, o caminho da meia-piras para a matas era sempre feito no Inverno, com os berlindes a deixarem rasto na lama. E as corridas e os saltos à volta da Praceta eram feitos em pleno Verão, à torreira do sol.

Já o hóquei tinha a sorte de evoluir em recinto semi-coberto, pois as tardes traziam sempre a sombra à Capitão Roby. E aí, em tempo de Chanas e Sobrinhos, a moral da história era como a moral da vida: safava-se melhor quem tinha o pau maior.

O Chico do Talho dava a caneta e o papel para marcar o score e o Martins emprestava os caixotes da fruta que faziam de balizas. Até aí, tudo bem. A polémica só aparecia mesmo com o tamanho dos paus.

Haviam três guarda-redes para três equipas de três jogadores. O Quelho não tinha muito jeito para a função, mas tinha um stique quase da altura da baliza que arrastava perigosamente à aproximação dos joelhos dos avançados.

O Malveira não era bom nem mau, mas como tinha óculos e um stique mais baixo não ameaçava o ímpeto goleador do Brux e do Bibita.

Já o Zé Burrié era o melhor, um fino estilista na baliza que até fazia defesas de perna alta. Mas como tinha o stique mais fino, era o mais batido dos quíperes. Ele bem se queixava do pau do Quelho, mas os números é que contavam. E como o seu pau era tão fino como a caneta que anotava os golos, lá aparecia ele no papel como o guarda-redes mais comido.

Durante um par de anos, a polémica manteve-se. E como nunca aparecia ninguém do Sesimbra ou do Paço de Arcos para vir dar razão ao Burrié, lá andava ele comido pela tristeza.

Mas chegou um dia - que doravante a história consagraria como o último dia em que se jogou hóquei na Capitão Roby – em que seria feita justiça ao Zé Burrié.

Mercê de conversações de altíssimo nível, combinou-se um jogo internacional: a Capitão Roby iria receber ali no seu feudo o time dos Embrechados (Nota de Redação: uma vénia ao PORT-entoso amigo).

Tudo estava preparado. Os couratos esturricavam na brasa, as cassetes com os hinos estavam prontas para tocar e a equipa inicial estava definida. Com o Burrié a jogar a efectivo. Afinal, ele até fazia defesas à Ramalhete, levantando a perna para defender as bolas altas. Finalmente, ele iria mostrar quem era o Maior. Mesmo tendo o pau mais fino.

Quando o jogo começou, percebeu-se que o adversário não tinha ninguém com o virtuosismo do Bibita ou com o sentido de oportunidade (na altura, dizia-se estar à mama) do Brux. Eram mais físicos, assim à espanhola. E não havia mais que dois ou três minutos de jogo, quando o Bloga, o famigerado defesa dos Embrexados, tentou afastar uma bola que lhe ameaçava a baliza e com uma fortíssima porrada, acertou com a ripa na matrícula da lambreta do Chico do Talho.

Ao ver metade da matrícula no chão, o Chico (sem tirar o avental) irrompeu pelo campo adentro, pondo em fuga toda a equipa dos Embrechados.

Para todos os efeitos, ganhámos dez a zero por desistência. Mas perderíamos a actividade do Verão, porque o Chico nunca mais emprestou a caneta e o hóquei nunca mais abrilhantaria o alcatrão da Capitão Roby.

Já o Zé Burrié tinha feito uma despedida em beleza. No seu último jogo, e mesmo com o pau mais fino, não tinha sofrido um único golo.

3 Responses to “O pau não se quer grosso”

  1. # Anonymous Portridge

    A memória de três álbuns do careca - perdão, Sal Solo - deixou-me tolhe-me as lembranças: quem raio era o Quelho?

    Port  

  2. # Anonymous Portridge

    Tolhe-me mais... Como se corrige os comentários?
    Port  

  3. # Anonymous Seth

    O Quelho era o Dar. Percebo que não te lembres. O stique dele tapava-lhe a cara.  

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