O nobre planeador
1 Comments Published by Seth Sacannalive on segunda-feira, setembro 11, 2006 at 18:53.
Diz quem viu que o cigano Sebastião vinha desalvorado a subir a Perry Vidal. Ainda tinha migalhas de pão pela barba e, no colete, os botões estavam apertados em desalinho. Todo vestido de preto, parecia uma noite mal dormida.
Quando chegou ao pé do Barão, logo retorceu a cara num esgar:
- Ó Sô Barão, disserem-me que o mê Blé ‘tá p’Aveiro. Veja lá você. Nã sei que faça. O miúdo sem regular bem e anda p’ali tã longe.
Toda a gente sabia que o Blé não funcionava bem da cabeça. Ali no bairro ou para os lados da Alameda, passava os dias a fazer saltar as velhas de susto. Chegava-lhes por trás e, com um grito enlouquecido, punha-as a mancar para longe. Depois afastava-se, enquanto elas regressavam ao local do acidente para apanhar o casaco de malha ou o molho de bróculos que tinham ficado como prova da malfeitoria.
E como esse era o seu prazer de uma vida, não surpreendeu a ninguém o ar de estranheza do Barão:
- Em Aveiro? Mas o que é que ele foi para lá fazer? Vai na volta tem para lá alguma namorada…
Com o lábio a estremecer, o Sebastião fez um ar de pena:
- Ó Sô Barão, você sabe que ele nã pensa bem. Ele nem quer mulher. Deve-se ter perdido, o maluco. Você é que me fazia um favor e ía lá buscá-lo no táxi.
Circunspecto, o Barão juntou o polegar e o indicador em volta do bigode:
- Epá, isso fica muita caro. Ir agora p’Aveiro. E ainda vir… E depois um gajo tem que comer uma bucha pela caminho.
O cigano Sebastião endireitou-se e tirou um molho de notas:
- É mê filho. P’alma da minha mãe. Qué’ lá saber do dinheiro. Olhe, estas aqui chegam?
Enquanto contava as notas de mil, o Barão assoprou longamente:
- Olhe, Sebastião, vou lá porque é p’ra si. Somos amigos há vinte anos. Epá, ir agora p’Aveiro. Bem…
Diz quem viu que o Barão levava um enigmático sorriso quando meteu a chave à porta do Mercedes. Mas como os bairros antigos são autênticas coutadas de maledicência, assim fica a verdade por saber.
De igual modo, e por muito que se conte à boca livre, podem até ser mentirosos os que juram ter visto o Blé a sair um par de dias antes no táxi do Barão.
Aliás, nunca se irá saber se o Barão estava mesmo a dar-lhe duas notas de quinhentos quando o largou na Estação de Santa Apolónia.
Diziam os amigos do Barão que ele não era homem para fazer uma coisa daquelas:
- Ele é reinadio, mas alguma vez punha o Blé num comboio p’Aveiro?
Já os conhecidos do Barão apostavam que ele era o homem do plano:
- Vocês parece que ‘tão esquecidos da gente que ele já matou?
Esse, sim, era o ponto fraco do Barão. De vez em quando, movido por uma qualquer sinistra inspiração nocturna, o Barão saía de casa antes do raiar do sol com um objectivo bem definido: matar alguém.
Nunca ninguém o tinha visto com olhos raiados de fúria, enquanto escondia nervosamente uma pistola.
Também não houve quem desse com ele a lavar no chafariz o sangue fresco que escorria de uma faca.
Mas testemunhas não faltavam quando ele pregou com fita-cola um papel na montra da drogaria. O papel era rectangular, branco com uma moldura preta e tinha uma cruz no meio. Era um anúncio de finados.
- Então, ó Barão, quem é que morreu?
- Epá, nem digas nada. Foi o rapazito da drogaria.
- Quem, o miúdo?!
- Sim, pá. Acho que ia a conduzir com os copos e espetou-se numa curva ali p’os lados de Caneças.
- Eh, caraças, um puto tão novo, pá.
- Vê lá tu bem. Até fiquei p’a morrer quando o pai dele me ligou.
E, quando na Picheleira, se lamentou a morte do Barroca, foi também o Barão quem o deu a anunciar.
- Foi isso e outro que já lá está, coitado.
- O quê? Morreu alguém?
- Então, ‘inda não ouviste nada, pá? Foi o Barroca, pá.
- O quê, o Barroca?!
- É verdade, pá. Ainda ontem ‘tive a falar com ele na sede e olha…
- Mas ele andava mal?
- Acho que era do diodeno.
Era impressionante o manancial de informação que o Barão parecia ter. No que tocava a mortes, era como se tivesse um cunhado a trabalhar na morgue. Chegava a saber antes das famílias.
Aliás, ele até sabia antes dos falecidos. Porque, na realidade, os falecidos não chegavam a morrer. Eram mortes de fingimento.
Era ele, como quem remata uma bola de matraquilhos antes dela bater no contraplacado, que os matava sem lhes dar prévio conhecimento.
Quando chegou ao pé do Barão, logo retorceu a cara num esgar:
- Ó Sô Barão, disserem-me que o mê Blé ‘tá p’Aveiro. Veja lá você. Nã sei que faça. O miúdo sem regular bem e anda p’ali tã longe.
Toda a gente sabia que o Blé não funcionava bem da cabeça. Ali no bairro ou para os lados da Alameda, passava os dias a fazer saltar as velhas de susto. Chegava-lhes por trás e, com um grito enlouquecido, punha-as a mancar para longe. Depois afastava-se, enquanto elas regressavam ao local do acidente para apanhar o casaco de malha ou o molho de bróculos que tinham ficado como prova da malfeitoria.
E como esse era o seu prazer de uma vida, não surpreendeu a ninguém o ar de estranheza do Barão:
- Em Aveiro? Mas o que é que ele foi para lá fazer? Vai na volta tem para lá alguma namorada…
Com o lábio a estremecer, o Sebastião fez um ar de pena:
- Ó Sô Barão, você sabe que ele nã pensa bem. Ele nem quer mulher. Deve-se ter perdido, o maluco. Você é que me fazia um favor e ía lá buscá-lo no táxi.
Circunspecto, o Barão juntou o polegar e o indicador em volta do bigode:
- Epá, isso fica muita caro. Ir agora p’Aveiro. E ainda vir… E depois um gajo tem que comer uma bucha pela caminho.
O cigano Sebastião endireitou-se e tirou um molho de notas:
- É mê filho. P’alma da minha mãe. Qué’ lá saber do dinheiro. Olhe, estas aqui chegam?
Enquanto contava as notas de mil, o Barão assoprou longamente:
- Olhe, Sebastião, vou lá porque é p’ra si. Somos amigos há vinte anos. Epá, ir agora p’Aveiro. Bem…
Diz quem viu que o Barão levava um enigmático sorriso quando meteu a chave à porta do Mercedes. Mas como os bairros antigos são autênticas coutadas de maledicência, assim fica a verdade por saber.
De igual modo, e por muito que se conte à boca livre, podem até ser mentirosos os que juram ter visto o Blé a sair um par de dias antes no táxi do Barão.
Aliás, nunca se irá saber se o Barão estava mesmo a dar-lhe duas notas de quinhentos quando o largou na Estação de Santa Apolónia.
Diziam os amigos do Barão que ele não era homem para fazer uma coisa daquelas:
- Ele é reinadio, mas alguma vez punha o Blé num comboio p’Aveiro?
Já os conhecidos do Barão apostavam que ele era o homem do plano:
- Vocês parece que ‘tão esquecidos da gente que ele já matou?
Esse, sim, era o ponto fraco do Barão. De vez em quando, movido por uma qualquer sinistra inspiração nocturna, o Barão saía de casa antes do raiar do sol com um objectivo bem definido: matar alguém.
Nunca ninguém o tinha visto com olhos raiados de fúria, enquanto escondia nervosamente uma pistola.
Também não houve quem desse com ele a lavar no chafariz o sangue fresco que escorria de uma faca.
Mas testemunhas não faltavam quando ele pregou com fita-cola um papel na montra da drogaria. O papel era rectangular, branco com uma moldura preta e tinha uma cruz no meio. Era um anúncio de finados.
- Então, ó Barão, quem é que morreu?
- Epá, nem digas nada. Foi o rapazito da drogaria.
- Quem, o miúdo?!
- Sim, pá. Acho que ia a conduzir com os copos e espetou-se numa curva ali p’os lados de Caneças.
- Eh, caraças, um puto tão novo, pá.
- Vê lá tu bem. Até fiquei p’a morrer quando o pai dele me ligou.
E, quando na Picheleira, se lamentou a morte do Barroca, foi também o Barão quem o deu a anunciar.
- Foi isso e outro que já lá está, coitado.
- O quê? Morreu alguém?
- Então, ‘inda não ouviste nada, pá? Foi o Barroca, pá.
- O quê, o Barroca?!
- É verdade, pá. Ainda ontem ‘tive a falar com ele na sede e olha…
- Mas ele andava mal?
- Acho que era do diodeno.
Era impressionante o manancial de informação que o Barão parecia ter. No que tocava a mortes, era como se tivesse um cunhado a trabalhar na morgue. Chegava a saber antes das famílias.
Aliás, ele até sabia antes dos falecidos. Porque, na realidade, os falecidos não chegavam a morrer. Eram mortes de fingimento.
Era ele, como quem remata uma bola de matraquilhos antes dela bater no contraplacado, que os matava sem lhes dar prévio conhecimento.
Imbatível!
Abraço,
Port