Bar do Justo


O Bairro Velho - parte II

Para a memória, tinha ficado os anos da rua. Uns grupos eram mais dos saltos e das bolas, outros dedicavam-se às jogadas do pensamento e havia ainda os que viam nas miúdas o alvo do dia a dia. Cada qual queimava as horas como melhor lhes parecia.

Os da Praceta eram, até certo ponto, os grandes invejados. Enquanto os outros estavam limitados pelos carros que passavam na rua ou que estavam estacionados no passeio, a Praceta tinha um polidesportivo à séria.

No meio, o campo da bola tinha sete lados e era metade terra, metade alcatrão. Mas, mesmo assim, dava para ser o Wembley do bairro. À volta, jogava-se ao pião, ao guelas, ao alho, ao hóquei e às caricas.

Apesar da Praceta ser quase plana, nem os carros de esferas se deixavam ficar. Era só riscar uma grelha de partida no chão da rua (onde os carros tinham preguiça de entrar) e haver quem empurrasse piloto e viatura até à primeira curva. O resto fazia-se por si.

Para quem ali tinha casa há quarenta anos, não havia pior sítio para a sesta da tarde. Já a malta da rua estava sempre em forma (todos os anos dois ou três iam jogar para o Vitória) e tinha tudo o que se podia querer.

E como a Praceta tinha fronteira com os Embrechados, com a Capitão Roby, com a Frei Fortunato e com o Carrascal, acabava por ser o natural destino para os que se cansavam de jogar às matrículas.
- Olha, outro 2. Já levo quatro pontos.
- Quatro??? Ainda há bocado tinhas dois!
- Ah é? E o Datsun encarnado? Não conta, é?!

Apesar da Quinta dos Embrechados ainda ocupar para aí um terço da área de todo o bairro velho, não passavam por lá Datsuns e Toyotas. É que a quinta era sítio de barracas onde os ciganos se cruzavam com outros a quem a sorte tinha falhado.

Entrar ali não dava descanso aos forasteiros, mas como não havia chafarizes mais próximos, acabava por ser ironicamente a mais violada das fronteiras.

E porque para mais não podia dar, a quinta era viveiro de jogadores da bola. O Luís Cara-de-Homem, o Magala, o Marinho, o Quim da Ti’Ana, o Chucha e o Galvão montaram o primeiro time para os históricos jogos contra a Praceta. Estava-se em 1980 e, naqueles "muda aos 5 e acaba aos 10" era como se o Uruguai e a Argentina pelejassem num campo da Picheleira.

Na criação que se seguiria, o Trapo, o Narais, o Bloga, o Irmundo (Edmundo era palavra difícil até para o próprio) e outros entraram como os lógicos substitutos no alcatrão da Praceta. Mais tarde, a história contaria que as duas gerações ainda se viriam a cruzar nos mesmos pátios e nos mesmos jogos. No Linhó ou em Pinheiro da Cruz.

A Capitão Roby cruzava toda a parte baixa do bairro. À vista da Carris, era a rua mais importante do bairro, pois era ali que o 30 e o 55 faziam zona, antes de se fazerem a caminho do Hospital de Santa Maria e de Alcântara-Mar.

Assim como se deixava tomar por duas carreiras de autocarros, a Capitão Roby era ocupada por dois grupos diferentes de pessoal.

A sul, e porque o óleo dos autocarros criava problemas a quem quisesse parar uma bola de peito, o pessoal era mais estimulado pela imaginação. Ali, as tardes eram inventadas, num constante materializar de novas actividades.
- E se jogássemos aos guarda-redes dentro do prédio do Pires?
- Parece que ‘tás esquecido. E a cegada que foi com a bola a bater nas portas? Eu cá para mim reinava aos espiões.
- Para isso íamos fazer planespotting.
- Epá, isso é muita chato. Só ter que 'tar à espera dos aviões... Isso é uma soda.

De ano para ano, o 55 vertia cada vez mais óleo e os ténis Sanjo rebentavam cada vez mais cedo. Em proporção, a revolta dos pais à noite subia cada vez mais de tom:
- Olha para esta miséria. Qualquer dia tenho que ir roubar para te comprar ténis. Eu não te queria bater no dia dos teus anos, mas tenho a impressão que hoje não te safas.

Com este sistema de altas pressões, as cabeças tinham mesmo que funcionar. E assim era nova brincadeira atrás de nova brincadeira. Pensando hoje naqueles dias, nem se estranha que quem tenha acabado os estudos tenha começado na Capitão Roby.

Já a zona norte da rua era interessada por outro tipo de estímulos. Fosse pela irrequietude das raparigas ou pela curiosidade dos rapazes, dali vinham sempre histórias que marcavam a juventude dos indígenas.
- O quê? Os dois?
- Epá, eu não ‘tava lá p’a ver. Mas dizem que era um pela frente e outro por trás.
- Bem, essa gaja… Nunca m’enganou.

À passagem dos 12 anos, ninguém precisava de prova maior do que alguém se lembrar de contar a história. Bastava o rumor andar por ali insinuado e era palavra bíblica: ela tinha sido comida.

Ainda por cima, como ali as bolas andavam arredias da rua e não havia vestígios de guerras de canudos pelo chão, mais ficava a ideia que o pessoal da zona norte da Capitão Roby andava orgiado pelas casas uns dos outros.

E, para fechar o ramalhete, até se falava de um dono de uma tipografia que tinha hábitos de acariciar as virtudes da miudagem e lhes dar bicicletas pelo favor. Ele até podia ter o negócio noutro lado, mas por acaso (ou talvez não) até era à entrada da zona norte.

A Frei Fortunato era mais conhecida pela Cervejaria do Greno e pela Tasca do Agostinho do que pelos miúdos que lhe ocupavam os passeios. Ali pagava-se os custos da interioridade, com a Calçada da Picheleira a norte, o Carrascal a oeste, a Capitão Roby a leste e a Praceta a sul. E assim, os nativos acabavam por estar destinados à emigração para os territórios vizinhos.

A ajudar, os pais não encorajavam a permanência na rua:
- Ficas já a saber: não te quero ao pé do Greno, qu’aquilo é só palavreado ordinário. E se sei que vais p’o Agostinho jogar na máquina, estás bem lixado comigo.

Mais acima, ficava a Calçada do Carrascal. Era gente que não tinha grandes relações com o resto do bairro. Davam sempre a ideia de que deviam ter chumbado na escola e que os pais os punham a trabalhar nas férias grandes. Em suma, era quase terra de ninguém.

A rua mais nova do bairro velho (e, por isso, discutida se fazia parte íntegra da Picheleira) era a João Nascimento Costa. Aos prédios de seis andares já se subia de elevador e os carros já tinham apoios aerodinâmicos. Para o resto do bairro, era outro tipo de gente.
- Ah, aquilo é só pessoal com guita. Meninos do papá.

No bairro, as ruas que iam de leste para oeste não tinham expressão nem interesse. De tão íngreme, a Silveira Peixoto só oferecia um programa: subir ao primeiro andar da sede do Vitória e ver os passantes a deixarem a pele das mãos ou a espatifarem o osso do sacro nas pedras do passeio.

Na Calçada da Picheleira, tinham que se redobrar os cuidados, de tantos serem os carros que passavam acima e abaixo. Ali, jogar às matrículas seria uma montanha russa sem travões.

Em certas horas do dia, a Perry Vidal parecia-se com a saída de um portal da Avenida do Brasil. É que, por um triste acaso dos realojamentos da Câmara ou por um teste chumbado à consanguinidade, a rua abundava de loucos. Na verdade, não passariam de dois ou três, mas como moravam num só quarteirão, há que convir que é um feito.

Era assim o Bairro Velho da Picheleira à passagem dos Anos 80. De tão estranho e desarranjado, não era sítio para se receber convidados. Mas, bem vistas as coisas, já se estava muito bem assim.

5 Responses to “O Bairro Velho - parte II”

  1. # Anonymous Waick

    Planespotting, era assim que se chamava....
    Sepp Maier, Bento, Cristina mocho, Zé Carocha, Jogo da Bolinha de Prata na escada do Zé Burrié, o mesmo a sujar a camisa do motorista da Carris...
    Seth, não te esqueças das Olimpíadas da Praceta (salvo erro, ainda detenho o record dos 200 m e do salto em comprimento).
    Abraços Waickianos.  

  2. # Anonymous Seth

    Caríssimo amigo,

    A memória é tudo e nem os papéis a devem desdizer.

    Mas se o seu record dos 200 metros parece ter sido alcançado em altitude (sendo assim mesmo quase inatingível), tenho a dizer-lhe que a melhor marca do salto em comprimento começou em mim, passou para si, avançou para a Quim do 9 (sabe-se lá Deus como é que ele não pisou o risco) e quase ficava no Paulo Silva, se não tem sido um salto descomunal da minha parte (que até hoje deixou marca nos meus cada vez mais debilitados calcanhares).

    Não consigo fazer 3 jogos de futebol de salão seguidos sem uma entorse que me paralisa por 3 meses, mas - caro colega saltador - a medalha ninguém ma tira.

    Certa imprensa chegou a dizer que como era eu o C.O.A. (Comité Organizador das Olimpíadas), risquei a lápis o record a meu favor. Mas, como é timbre nestes casos, a resposta será dada nos locais competentes.

    Esperando que me perdoe pela desilusão (de certeza que a pequena Helena já ouviu dez vezes a história do pai bi-recordista), salto fora com um abraço


    Seth


    P.S.: Recuperando o futebol de salão, tentei na passada 5ª Feira às 21:30 testemunhar os seus esforços na escola de Paço d'Arcos, mas as portas estavam fechadas a cadeado. Seria porque já esperavam a minha presença?  

  3. # Anonymous Portridge

    Ora aí está outra bela descrição. A tua perspectiva varia algo da minha (diferença geográfica ou de idade?), mas a substância daquele lado da Picheleira está lá.
    Por outro lado não tenho memória nenhuma das olimpíadas. Já não andaria por lá...
    Sei que tenho andado arredio, mas a memória e a falta de tempo tolhem-me.
    Saúde.  

  4. # Anonymous Anónimo

    K saudades tenho desse tempos bem + recuados
    Fui feliz nesse grandioso bairro
    k saudades tenho ñ contenho uma lágrima de emoção pelo bairro pelos amigos que já partiram para a grande viagem e de alguns que ainda viverão nesse Glorioso bairro da PICHELEIRA
    Pela pobreza k vivi no Picheleira Atlético Clube
    Pela fusão do Botafogo e pelo o Picheleira que deu o Glorioso VITÒRIA CLUBE DE LISBOA ( que deveria ter sido Vitoria Clube da Picheleira ) mas os homens ñ se entenderam e renegaram o nome do Bairro que lhes deu kuase td na vida
    Pela instrução primária feita no glorioso Vitoria Clube de Lisboa do qual fui o sócio nº36 e tive grande de honra de ter sido seu presidente ainda no seculo passado Pela abastança k vivi na praceta pois era dos poucos k tinha um bmw
    Um abraço ao autor da prosa sobre esse bairro aonde fui tão feliz e ñ sabia  

  5. # Anonymous Anónimo

    apesar de atrasado, deixo uma palavra de agradecimento a quem escreveu esta prosa, na qual vislumbro quase tudo aquilo que escreveria se tivesse sido eu a fazê-lo. para quem conhece o bairro, o escrito corresponde em absoluto à realidade. apreciei bastante e agradeço a quem o escreveu. uma palavra também para o senhor que escreveu o comentário anterior, o sócio 36 do VCL. penso que sei quem é e daqui lhe envio as minhas felicitações pelo brilhantismo do post. Obrigado a todos.  

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