O Bairro Velho - parte I
5 Comments Published by Seth Sacannalive on sexta-feira, setembro 29, 2006 at 17:02.
Ali, ninguém ouvia falar em gangs e as mortes só aconteciam mesmo na última cova dos berlindes. Contudo, que ninguém levante dúvidas: morar nos Anos 80 na parte velha da Picheleira era fazer parte de um delicado equilíbrio territorial. Ou, nem exagerando, de um intrincado exercício geo-estratégico.
Eram sete ruas, uma praça e uma quinta que não se esticavam por mais de uma mão cheia de kilómetros quadrados. E, pelo meio, mais de cem miúdos que ainda não passavam da idade da penugem, mas que já vestiam a camisola da sua rua.
Nem todas estas ruas tinham um grupo (na altura, dito “o pessoal”, como “o pessoal do Carrascal” ou “o pessoal da Frei Fortunato”). Mas, por outro lado, haviam grupos que até tinham que dividir entre si o comprimento de uma rua, quarteirão a quarteirão.
Contudo, entre territórios divididos e não-ocupados, nunca foi preciso instalar postos de fronteira. Nunca os da Praceta tentaram anexar o Carrascal, nem os dos Embrechados tinham levado um exército armado de canudos para a Capitão Roby. Os tempos eram de mudo entendimento. Cada um tinha o que tinha e ponto final.
Não quer isto dizer que o ambiente fosse de simpatia ou amizade. Simplesmente, havia sempre um ou dois tipos de cada tribo que jogavam juntos no Vitória ou andavam na mesma turma na Cesário ou na Luísa. Então, havia tolerância.
Mais, se o tipo tivesse feito dois golos ao Operário no último fim-de-semana ou fosse visto sozinho e sem medo nos carrinhos de choque da Paiva Couceiro, chegava a merecer o respeito do pessoal doutras ruas.
- É d’ homem. Aquilo é d’homem…
Naquele tempo, o bairro tinha uma reputação além-fronteiras de ser uma terra de índios. Os de fora diziam que para virem à Picheleira e irem para casa sem o passe e o fio de prata, mais valia estarem sossegados. Em qualquer dos grupos do bairro, já habituados à história, achava-se que a razão era outra:
- Isso é gajos que têm é medo de jogar contra nós. Sabem que até lhes damos 5 de avanço.
E, assim, tirando as saídas aos campos da Curraleira e do Casal do Pinto (que também não tinham relações diplomáticas com o exterior), estava destinado o arranjo entre os grupos do bairro. Fosse para jogar à bola ou para as jornadas de atletismo.
Nesta ordem das coisas, nunca passou pela cabeça de ninguém cortar relações com outro grupo. Por duas razões principais: primeiro, porque isso seria forçar o isolamento territorial a que já se estava entregue; segundo, porque quando se tem 12 ou 13 anos, não se pensam nessas coisas.
Com o passar dos anos, até havia gente a ir de um grupo para outro, sem que isso fosse razão para o marcarem com uma fisgada de clipes ao passar pelo antigo território. Havia quem tivesse vivido mais de vinte anos na Frei Fortunato, deixado a puberdade na Praceta e acabasse por fazer amigos na Capitão Roby.
Assim, a livre-circulação marcou o fim da década. Havia gente dos Embrechados na Praceta, pessoal da Frei Fortunato na Capitão Roby e chegava-se a mudar de grupo de ano para ano.
Foi também a temporada em que os piões foram definitivamente quincados pelos computadores. Agora, haviam até ruas que pareciam órfãs dos seus grupos. Nas mesas das leitarias ou nos bancos de jardim, os velhos do bairro já não ameaçavam rasgar as bolas com um canivete.
E, casa a casa, os grupos juntavam-se à sombra. Chegara a globalização.
Eram sete ruas, uma praça e uma quinta que não se esticavam por mais de uma mão cheia de kilómetros quadrados. E, pelo meio, mais de cem miúdos que ainda não passavam da idade da penugem, mas que já vestiam a camisola da sua rua.
Nem todas estas ruas tinham um grupo (na altura, dito “o pessoal”, como “o pessoal do Carrascal” ou “o pessoal da Frei Fortunato”). Mas, por outro lado, haviam grupos que até tinham que dividir entre si o comprimento de uma rua, quarteirão a quarteirão.
Contudo, entre territórios divididos e não-ocupados, nunca foi preciso instalar postos de fronteira. Nunca os da Praceta tentaram anexar o Carrascal, nem os dos Embrechados tinham levado um exército armado de canudos para a Capitão Roby. Os tempos eram de mudo entendimento. Cada um tinha o que tinha e ponto final.
Não quer isto dizer que o ambiente fosse de simpatia ou amizade. Simplesmente, havia sempre um ou dois tipos de cada tribo que jogavam juntos no Vitória ou andavam na mesma turma na Cesário ou na Luísa. Então, havia tolerância.
Mais, se o tipo tivesse feito dois golos ao Operário no último fim-de-semana ou fosse visto sozinho e sem medo nos carrinhos de choque da Paiva Couceiro, chegava a merecer o respeito do pessoal doutras ruas.
- É d’ homem. Aquilo é d’homem…
Naquele tempo, o bairro tinha uma reputação além-fronteiras de ser uma terra de índios. Os de fora diziam que para virem à Picheleira e irem para casa sem o passe e o fio de prata, mais valia estarem sossegados. Em qualquer dos grupos do bairro, já habituados à história, achava-se que a razão era outra:
- Isso é gajos que têm é medo de jogar contra nós. Sabem que até lhes damos 5 de avanço.
E, assim, tirando as saídas aos campos da Curraleira e do Casal do Pinto (que também não tinham relações diplomáticas com o exterior), estava destinado o arranjo entre os grupos do bairro. Fosse para jogar à bola ou para as jornadas de atletismo.
Nesta ordem das coisas, nunca passou pela cabeça de ninguém cortar relações com outro grupo. Por duas razões principais: primeiro, porque isso seria forçar o isolamento territorial a que já se estava entregue; segundo, porque quando se tem 12 ou 13 anos, não se pensam nessas coisas.
Com o passar dos anos, até havia gente a ir de um grupo para outro, sem que isso fosse razão para o marcarem com uma fisgada de clipes ao passar pelo antigo território. Havia quem tivesse vivido mais de vinte anos na Frei Fortunato, deixado a puberdade na Praceta e acabasse por fazer amigos na Capitão Roby.
Assim, a livre-circulação marcou o fim da década. Havia gente dos Embrechados na Praceta, pessoal da Frei Fortunato na Capitão Roby e chegava-se a mudar de grupo de ano para ano.
Foi também a temporada em que os piões foram definitivamente quincados pelos computadores. Agora, haviam até ruas que pareciam órfãs dos seus grupos. Nas mesas das leitarias ou nos bancos de jardim, os velhos do bairro já não ameaçavam rasgar as bolas com um canivete.
E, casa a casa, os grupos juntavam-se à sombra. Chegara a globalização.
Era uma vez na América e tenho dito....mainada.
Abraços.
Quem diria! Esta Picheleira soa como um lugar tão aprazível com mal afamado. Está muito bem visto. Nunca vi as coisas assim. E no entanto a análise parece-me inteligente e acertada.
Saúde!
ola,sou a jacira tavares,estudo na antonio arroio e estou a fazer um trabalho na area do video sobre a picheleira,agadecia q me dessem mais informações...obrigado
Olá, saudades desses tempos neste bairro da Picheleira, onde cresci e vivi, agarrado aos berlindes e piões de uma infância que já ninguem se lembra.
Viver na Picheleira naqueles tempos era uma aventura diária, num compromisso de território que se mantinha a todo o custo.
Obrigado pelas memórias.
Que saudades desses tempos da Picheleira jogar há bola no meio da rua a febre dos berlindes as guerras de canudos e a força dos piões a girar lascados... bem aquele chafariz de qual tanta água bebi me fica na recordação.
Amigos que deixei mas que ficam no coração, amigos que passei a minha infância e juventude e que muitos anos passados nos encontramos anualmente.
Picheleira mal afamada como ja foi dito mas com muito bairrismo coisa que hoje em dia pouco existe.