Macho, macho man...
1 Comments Published by Seth Sacannalive on sexta-feira, setembro 08, 2006 at 14:18.
Em 78 ou 79, as vozes de que a música andava com tons de rosa-choque não se faziam ainda ouvir. Aqueles eram os dias do Disco Sound.
Pela América, as bolas de espelhos já iam deixando de rodar nas discotecas e as calças voltavam a fechar a boca de sino.
Mas, no bairro, a juke box da Vitoriana ainda gritava “In the Navy” e “Born To Be Alive” em loops formidáveis. Oitenta por cento dos homens ainda tinha bigode e calçar socas de madeira era até sinal de virilidade.
Do mesmo modo, o cinema era destemido e transpirado. Os cartazes no Roxy e no Pathé alternavam o Trinitá com o Bruce Lee (ou Burcelim, como se dizia na altura) e só os mergulhos na Alameda competiam com essas vigorosas matinés.
Nesses tempos, a Praceta dava ares de Faroeste. Ali, homem que fosse homem tinha a sua matracazita. E não havia equimoses que os parassem. Pelo menos, até conseguirem dominar o golpe de mão direita sobre o ombro esquerdo para recepção com uma roda do pulso do mesmo lado. E uma vez alcançado o feito, havia que rematar com uma careta de Kung-Fu. Assim à Burcelim, com os dentes cerrados e os olhos bem arregalados.
Vindo do nada, havia sempre alguém a ensaiar o golpe de cutelo. Ou a revisitar a cena em que o Bud Spencer tinha posto um cavalo a dormir com um murro.
De vez em quando, alguém procurava inovar, procurando ganhar o Cinturão Negro no respeito dos outros. Lembro-me particularmente do Vitinha Podre a subir a uma árvore, pendurado de cabeça para baixo e dobrado num ramo pela parte de trás dos joelhos. Lembro-me dos urros que ele dava, enquanto agitava o vazio com múltiplos golpes de cutelo. Lembro-me do crrrrrec do ramo ao partir-se e do Podre a aterrar na zona onde o pescoço passa para as costas.
Atirámo-nos para o chão numa trovejante gargalhada, mas alguém disse mais tarde que o viu levantar-se logo de um pulo, em prontificada posição de ataque. E parece que tinha os olhos bem arregalados.
Enfim, aquilo é que eram tempos de homem. É certo que ninguém ali tinha mais que 14 anos, mas não havia dia que passasse sem alguém andar ao bilhete. Tudo começava com um “Ehh, g’anda baile. E tu ficas-te???”.
Era só o que bastava. Porque ninguém se ficava. E partia-se de imediato para minuto e meio de golpes fatais, que certamente entrevariam um corpo menos treinado a receber os mortíferos impactos.
Como homenagem e para superior orgulho, foi-se até buscar uma canção dos Village People para dar nome à equipa de futebol da Praceta. E quando se via aquela bandeira feita de pau de vassoura, com as palavras “Macho Man” a ondularem ao vento num lençol já gasto, até se jogava melhor.
Era como se o campo estivesse a descer, vergado ao poder de um poderosa matraca humana.
Pela América, as bolas de espelhos já iam deixando de rodar nas discotecas e as calças voltavam a fechar a boca de sino.
Mas, no bairro, a juke box da Vitoriana ainda gritava “In the Navy” e “Born To Be Alive” em loops formidáveis. Oitenta por cento dos homens ainda tinha bigode e calçar socas de madeira era até sinal de virilidade.
Do mesmo modo, o cinema era destemido e transpirado. Os cartazes no Roxy e no Pathé alternavam o Trinitá com o Bruce Lee (ou Burcelim, como se dizia na altura) e só os mergulhos na Alameda competiam com essas vigorosas matinés.
Nesses tempos, a Praceta dava ares de Faroeste. Ali, homem que fosse homem tinha a sua matracazita. E não havia equimoses que os parassem. Pelo menos, até conseguirem dominar o golpe de mão direita sobre o ombro esquerdo para recepção com uma roda do pulso do mesmo lado. E uma vez alcançado o feito, havia que rematar com uma careta de Kung-Fu. Assim à Burcelim, com os dentes cerrados e os olhos bem arregalados.
Vindo do nada, havia sempre alguém a ensaiar o golpe de cutelo. Ou a revisitar a cena em que o Bud Spencer tinha posto um cavalo a dormir com um murro.
De vez em quando, alguém procurava inovar, procurando ganhar o Cinturão Negro no respeito dos outros. Lembro-me particularmente do Vitinha Podre a subir a uma árvore, pendurado de cabeça para baixo e dobrado num ramo pela parte de trás dos joelhos. Lembro-me dos urros que ele dava, enquanto agitava o vazio com múltiplos golpes de cutelo. Lembro-me do crrrrrec do ramo ao partir-se e do Podre a aterrar na zona onde o pescoço passa para as costas.
Atirámo-nos para o chão numa trovejante gargalhada, mas alguém disse mais tarde que o viu levantar-se logo de um pulo, em prontificada posição de ataque. E parece que tinha os olhos bem arregalados.
Enfim, aquilo é que eram tempos de homem. É certo que ninguém ali tinha mais que 14 anos, mas não havia dia que passasse sem alguém andar ao bilhete. Tudo começava com um “Ehh, g’anda baile. E tu ficas-te???”.
Era só o que bastava. Porque ninguém se ficava. E partia-se de imediato para minuto e meio de golpes fatais, que certamente entrevariam um corpo menos treinado a receber os mortíferos impactos.
Como homenagem e para superior orgulho, foi-se até buscar uma canção dos Village People para dar nome à equipa de futebol da Praceta. E quando se via aquela bandeira feita de pau de vassoura, com as palavras “Macho Man” a ondularem ao vento num lençol já gasto, até se jogava melhor.
Era como se o campo estivesse a descer, vergado ao poder de um poderosa matraca humana.
Ah! Ah! Uma história divertida contada na linguagem da terra. Louvo o meu caro confrade, mas não ponho as mãos no fogo pela auto-apregoada masculinidade dos Village People. Do cigano Podre pode ser que saia prosa mais adiante.
Saúde!
Port